O gasoduto ligando a Bolívia às regiões Sudeste e Sul e, possivelmente, com um ramal para o Centro-Oeste, será, quando estiver concluído, daqui a uns quatro ou cinco anos, a segunda grande obra de infra-estrutura física a integrar as economias de dois vizinhos. A primeira realizada durante a década de 70, foi a hidrelétrica paraguaio-brasileira de Itaipu. E, por feliz coincidência, será também a segunda a ter o Brasil como um dos parceiros.
É claro que a importância geopolítica do gasoduto é comparável à da hidrelétrica binacional. Sua consequência natural, após o término da obra, será aproximar ainda mais a Bolívia do Mercosul.
Além disso, o impacto da chegada de gás boliviano ao território brasileiro será enorme para ambos os países, mas suas consequências benéficas mais imediatas, sem dúvida, serão percebidas no Brasil. A explicação para tal fato é que as regiões Sudeste e Sul são as mais desenvolvidas, têm mercado promissor, mão de obra especializada de bom nível e - acima de tudo - indústrias capazes de usar o gás como insumo de produção.
A lamentar apenas a demora até a sua - agora já assegurada - realização. Perderam-se nada menos do que 15 anos em intermináveis negociações que nunca chegavam a nada. Obviamente, por trás dessa demora escondiam-se lobbies poderosos, embora mesquinhos, já que os interesses nacionais foram simplesmente ignorados. É que as regiões Sudeste e Sul - as mais industrializadas do País - são também as maiores consumidoras dos óleos combustíveis e diesel que o gás natural substitui com enormes vantagens.
É claro que a número 1 das nossas estatais, a toda poderosa Petrobrás, não estava disposta a largar o filé mignon, representado pelo fornecimento dos derivados de petróleo ao parque industrial do Sudeste e do Sul, já que ela, infelizmente, à exceção das bacias de Campos (RJ) e de Merluza (SP) não produz gás suficiente para substituir - ainda que parcialmente - os óleos combustíveis e diesel queimados nas caldeiras industriais. E - como já se tornou hábito entre nós - quando a opção a fazer é entre os interesses maiores do País e membros (leia-se lucros) das grandes corporações (aí incluídas empresas transnacionais e estatais) não se pensa duas vezes em geral, o País sai perdendo.
Felizmente, no entanto, a fase de empurrar o gasoduto com a barriga já terminou. Se não ocorrerem novos atrasos por questínculas técnicas, que quase sempre escondem interesses contrariados podemos, finalmente, assistir ao início de uma obra desenvolvimentista orçada em dois trilhões de dólares, cujo retorno se dará em pouco tempo. E melhor ainda: o gás permitirá às indústrias elevar a produtividade e, consequentemente, a capacidade de competição, já que o gás como insumo de produção é muito mais barato do que os derivados do petróleo que irá substituir.
Mas não param aí as vantagens de se queimar gás nas caldeiras industriais. Ao contrário do diesel e dos óleos combustíveis ele não libera monóxido de carbono, nem dióxido de enxofre, ambos altamente poluentes. E, com isso, mais uma vez ajudará as indústrias a economizar filtros e dispendiosos tratamentos dos resíduos expelidos pelas chaminés.
Em outras palavras, o gás natural proveniente da Bolívia que não dispõe de parque industrial para consumí-la, em poucos anos, vai alterar profundamente a atual e absoleta matriz energética das indústrias localizadas nas regiões Sudeste e Sul.
O outro uso a ser dado ao gás boliviano trará benefícios ainda maiores para toda a sociedade, em termos de melhor qualidade de vida nas grandes cidades daquelas regiões. É que ele também deverá substituir gradativamente o óleo diesel, que aciona os motores das frotas de ônibus, no transporte coletivo diário de milhões de passageiros.
Quando tudo isso, finalmente, tornar-se realidade, todos nós, contribuintes e sofridos habitantes das grandes cidades brasileiras, podermos agradecer à Petrobrás pela ‘‘liberalidade’’ de nos deixar respirar um ar com menos impurezas.
- MIGUEL IGNATIOS é Presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas do Brasil

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