A julgar pela reação dos economistas de Wall Street, que atuam em conglomerados financeiros ou grandes empresas com interesse no Mercosul, a saída encontrada pela Argentina não foi a melhor. E o foco da crítica é justamente a âncora do novo plano: regime cambial duplo, com câmbio fixo para atividades comerciais (‘‘tabelado’’ em 1,4 pesos) e câmbio flutuante para o turismo.
A elite dos economistas, com endereço no Wall Street, vinha sugerindo, dias atrás -, não formalmente - que a ‘‘medida monetária’’ mais acertada seria o câmbio flutuante. Mas o governo argentino está buscando estabilidade nessa fase de transição e as medidas do momento visam apagar incêndios. Terá de readequá-las antes mesmo do previsto.
A Argentina tem a solidariedade de vários países, mas o teor das mensagens de apoio deixa entrever tratar-se muito mais de votos de sucesso do que uma posição de aceitação técnica dos riscos que sobrevêm. No caso do Brasil não há como descartar prejuízos nas transações diretas entre empresas. Mas riscos são inerentes.
Outro impacto que não pode ser ignorado é o aumento da chance que a Argentina acaba de adquriri para retomar suas exportações, com a moeda interna desvalorizada - mas, ainda assim valendo mais que o real na relação com o dólar. A Argentina volta com tudo e pretende reconquistar os espaços da carne bovina, seu forte, e milho, dois itens que devem incomodar muito os brasileiros. No caso do trigo, não se trata de competição porque o Brasil é mero comprador.
Os técnicos argentinos acham que a taxa fixa de 1,4 deve se sustentar por quatro ou cinco meses e que a taxa flutuante para as transações de turismo ficará próxima desse nível. Wall Street acha que no curto prazo é possível que a taxa flutuante não se desvalorize tanto em relação à taxa fixa de 1,4. Mas isso porque há uma escassez de pesos na economia argentina, devido aos limites nos saques dos depósitos bancários. Porém, dentro de três meses, é muito provável que a taxa flutuante caia bem abaixo do nível da taxa oficial, denotando um quadro de iliquidez em pesos, tumultuando a circulação interna.
A volta da Argentina ao mercado internacional, que a nova equipe econômica prevê para o segundo trimestre, ocorre num ano em que as exportações brasileiras não terão a mesma sorte que em 2001, befejada que foi pela alta do dólar e queda do real.
A balança comercial brasileira fechou 2001 em condição confortável em relação ao ano anterior, e começa 2002 com um superávit de US$ 20 milhões. Essa performance pode ser prejudicada com a volta da Argentina ao mercado, principalmente da carne bovina, por exemplo.

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