Crise energética do País poderá comprometer expansão econômica de forma expressiva. Técnico rebaixa PIB de 4,1% para 2,7%
Após a divulgação dos detalhes do plano de racionamento pelo governo, os economistas de Wall Street dedicados à América Latina já começam a fazer novas projeções do impacto da crise energética sobre a taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2001. Lawrence Krohn, economista-chefe do ING-Barings para América Latina, revisou a sua projeção do PIB brasileiro deste ano de 4,1% para 2,7%, ou seja, um corte de 1,4 ponto porcentual na estimativa para 2001. Segundo ele, somente o racionamento de energia elétrica será responsável por uma redução em 1,1 ponto porcentual do PIB.
‘‘Outro fator que levamos em conta na redução da nossa projeção do PIB brasileiro, embora com um peso menor, foi a redução da atividade econômica mundial, que afeta o comércio internacional do Brasil’’, disse Krohn à Agência Estado.
Uma política monetária mais restritiva também terá um papel importante na redução da atividade econômica. Krohn prevê uma elevação da taxa de juros pelo Copom em 50 pontos-base hoje, além de outros 25 pontos-base antes de voltar a cair no final do ano para um nível ao redor de 16,50% ao ano. ‘‘Mesmo assim, a Selic vai terminar o ano num nível bem mais alto do que esperávamos’’, acrescentou.
Krohn acredita que o Brasil conseguirá atingir suas metas fiscais neste ano, em boa parte pelo seu bom desempenho em atingir superávits primários nos últimos anos, embora esse objetivo tenha se tornado muito mais difícil.
O racionamento de energia elétrica também provocou uma revisão para baixo da projeção feita pelo economista-chefe para América Latina do banco HSBC, Santiago Millan. No início do ano, Millan projetava um aumento de 3,5% do PIB do Brasil em 2001. Depois do plano de racionamento, o economista baixou sua estimativa para 2% neste ano. ‘‘O racionamento representou a maior parte da redução de 1,5 ponto da nossa estimativa’’, informou Millan. ‘‘Além do fato de a indústria ter de cortar o consumo de energia elétrica, causando uma queda na produção, o racionamento terá um efeito negativo sobre as expectativas, acrescentando um grau elevado de incertezas sobre a economia brasileira. A consequência disso é que os planos de investimentos – que estariam sendo levados adiante se não houvesse essas incertezas – serão adiados’’, afirmou.
Millan ressaltou que o investimento é o componente mais volátil em todas as economias. ‘‘Ao contrário do consumo, que é mais estável, o investimento é uma decisão mais fácil de adiar’’, comentou. Millan admite que sua estimativa no início do ano estava abaixo do consenso do mercado porque sua expectativa para a economia norte-americana em 2001 é de crescimento zero. ‘‘De fato, esperamos um crescimento negativo do PIB americano no segundo semestre deste ano’’, disse. No caso brasileiro, além do racionamento, Millan revisou para baixo sua projeção devido à volatilidade no câmbio. O economista do HSBC espera uma alta da taxa de juros, na reunião do Copom hoje, em 50 pontos-base. Para o fim do ano, ele projeta uma taxa Selic de 17,50% ao ano.
O economista para América Latina do banco de investimentos Lehman Brothers, Paulo Vieira da Cunha, disse que o racionamento deverá reduzir a taxa de crescimento do Brasil entre 0,6 e 0,8 ponto porcentual em 2001. Cunha revisou sua projeção para 3,6% neste ano.
O economista não espera que as liminares e as ações na Justiça desmantele o plano de racionamento anunciado na semana passada pelo governo. ‘‘Acho que as ações na Justiça vão continuar, mas mesmo antes da divulgação do plano de racionamento já estava sendo registrada uma queda no consumo de eletricidade, o que mostra um apoio e uma compreensão da população para o problema’’, analisou Cunha.
Do lado econômico, Cunha acredita que o racionamento terá um impacto nos índices de inflação, o que levará o Banco Central a agir, elevando a taxa de juros em 50 pontos-base hoje, na reunião do Copom. ‘‘Embora ache que o BC deveria elevar a taxa Selic em 100 pontos-base’’, observou o economista do Lehman Brothers. ‘‘O racionamento significará um outro choque de oferta que o Copom terá de lidar’’, acrescentou. No entanto, Cunha acha que ao elevar os juros para o nível de 17% ao ano por volta de outubro, as expectativas de inflação deverão se ajustar rapidamente, o que poderá permitir os juros cederem novamente até fechar 2001 por volta de 15,25% ao ano.

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