A macumba é a última novidade para enfrentar a crise da economia internacional. A introdução pouco ortodoxa de orixás em Wall Street teve de ser muito discreta. Uma mãe-de-santo fez o serviço, meses atrás, contratada pela direção da Bolsa de Valores de Nova York. Os resultados são desconhecidos, mas ela já foi convidada para voltar.
A macumbeira é dona Ilka da Silva, natural de Nazaré das Farinhas, no sertão baiano. A escolha dela foi negociada entre um diretor da bolsa e um diplomata do Consulado Brasileiro em Nova York, tudo no maior sigilo: o cliente não queria revelar a origem dos problemas, nem demonstrar seu apelo ao misticismo.
Os americanos pediram a macumbeira para limpar um certo ‘‘astral negativo inespecífico’’, na definição do diretor da BV, que estaria afetando o desempenho da instituição.
O diplomata enfrentou dois momentos difíceis na escolha da pessoa certa. Primeiro: a Bolsa começou querendo contratar a melhor de todas as macumbeiras, Mãe Menininha do Gantois. Os americanos ficaram um pouco decepcionados quando souberam que nenhum dinheiro do mundo poderia trazê-la de volta, porque ela já morreu.
O segundo problema foi logístico: como botar uma baiana, de vestido branco cheio de babados, na sala do pregão da New York Stock Exchange? A cena atrairia os paparazzi e transformaria em terreiro o solo sagrado do capitalismo.
Solução diplomática: oferecer os serviços de dona Ilka, double de mãe-de-santo e executiva, adaptada ao figurino de Wall Street. Nas sessões, ela veste uma longa capa creme da grife Donna Karan, sobre um conjuntinho de Elisabeth, a melhor estilista americana.
Dona Ilka tem as credenciais impecáveis para o serviço de limpeza astral. Bisneta de escravos congoleses, aprendeu o ofício em casa. Em Belo Horizonte, era dona da casa de ervas Cigana Lolita. Nos Estados Unidos desde 1990, atende bancos, corretoras, empresas de aviação e artistas - entre eles o líder de uma banda inglesa de rock que está na estrada há quase 30 anos (ela nunca menciona o nome dos clientes).
O serviço na BV foi simples. ‘‘Entrei durante o pregão, com um crachá no peito, como se fosse uma visitante normal, me misturei com os corretores. Abri minha bolsa e joguei as ervas no chão, fiz as rezas e sai, discretamente, ninguém percebeu’’, conta a baiana.
‘‘O ambiente estava muito carregado mesmo, pude sentir muita inveja, muita competição, isto é ruim para os negócios, todos podem ganhar quando o lugar está mais limpo’’, ensina dona Ilka - botando uma pitada de baianidade no espírito competitivo de Wall Street.
A macumbeira é high-tech. Usa um notebook Toshiba para arquivar suas receitas e atende clientes pelo celular. Ela ganha bem, mas não diz quanto, por medo do leão americano. No serviço da bolsa, além de dólares, ela ganhou uma pulseira de ouro e diamantes, como lembrança pessoal do diretor que fez a contratação.
A macumbeira viaja muito. Dias atrás, esteve na Flórida, onde foi benzer o departamento de cargas de uma companhia de aviação. Ela não admite brincadeiras com seu trabalho: ‘‘Não dou garantia contra queda de avião, nem nenhum tipo de retorno, só posso afirmar que abrir os caminhos é essencial para o desenvolvimento das pessoas e dos negócios, tem muita gente botando olho grande em tudo’’.
A baiana não dá todo o segredo das poções que usa. O material vai sempre numa bolsa de couro de crocodilo italiana. ‘‘Levo noz-moscada, dandá-da-costa, pachouli, abre-caminhos e outras três, que não revelo, por medo da concorrência’’, afirma.
A seleção das ervas é o mais importante. Dona Ilka traz as suas do Brasil. Uma vez, quando passava com um carregamento pela alfândega americana, foi interrogada pelos fiscais. Eles queriam confiscar o material. Ela segurou o pacote e lascou: ‘‘No maconha, macumba’’. A turma tremeu e a deixou passar.Arquivo FolhaForças do alémOperadores no pregão da Bolsa de Nova York: macumbeira para limpar o ‘‘astral negativo inespecífico’’Agência Estado

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