Não há dúvidas de que a valorização do dólar, de 41,18% desde o dia 13, constitui forte pressão sobre a inflação nos próximos meses. A queda do real eleva o preço dos importados, que passam a oferecer menos concorrência aos artigos nacionais. Além disso, aumenta o custo de produção de itens nacionais que utilizam matéria-prima importada, e esse efeito chega ao consumidor. No embalo da onda, artigos nacionais que não têm nada que ver com o dólar podem subir, pelo simples fato de não enfrentar mais a concorrência do importado.
Difícil é saber a quanto de inflação levará esse aumento. Tanto é assim que os economistas estão trabalhando com projeções que vão de 5% a 10% no ano.
O governo quer amenizar os efeitos da desvalorização sobre a inflação. Para isso, elevou ainda mais os juros, o que tende a manter a economia desaquecida e a demanda baixa; estuda a redução de alíquotas do Imposto de Importação, para compensar de certa forma a alta do dólar no custo de importação, e a exposição dos setores que abusarem nos reajustes a maior concorrência. Por exemplo, ameaça permitir que companhias aéreas estrangeiras façam vôos domésticos porque as empresas nacionais cortaram os descontos nas passagens depois da desvalorização do real. Além disso, promete punir quem aplicar reajustes abusivos. É preciso levar em conta também que os salários não estão indexados, o orçamento das pessoas de uma forma geral está apertado, razão suficiente para barrar tentativas de aumentos de preços indiscriminados.
A questão é saber se existem meios para conter a inflação. Marcelo Maneo de Oliveira, economista da Lloyds Asset Management, que trabalhacom projeções de 8% a 10% para a inflação deste ano, diz que é inevitável o aumento no preço dos produtos importados ou que têm componentes importados, por uma questão de aumento no custo.
Ele explica que o reflexo dessa alta na inflação deve ser mais acentuado nos primeiros dois ou três meses, com um acumulado de 5% a 6% nesse período, e diluir nos meses seguintes, para chegar a 8% ou 10% no ano. E acrescenta que a demanda reprimida vai amortecer tentativas de aumentos exagerados, porque as pessoas vão ficar mais seletivas na hora da compra.
O fato é que, se subir, a inflação vai provocar estragos na vida de todos nós, na economia desindexada. Com inflação, o salário perde poder aquisitivo e reajustes ficam difíceis com a taxa de desemprego elevada e a economia em recessão. O desemprego tende a diminuir em algumas empresas, como nas do setor exportador, mas pode aumentar em outras, com o aprofundamento da recessão. O crédito fica caro, porque os juros são altos e a inadimplência aumenta.
Marcos Silvestre, economista-chefe da Forex - Centro de Orientação de Finanças Pessoais, diz que diante da ameaça da inflação é preciso acertar o orçamento desde já, com o corte de despesas.

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