Volks propõe pacote para não demitir
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sexta-feira, 20 de novembro de 1998
Agência Estado 
A ameaça de demissões na Volkswagen atinge 7.600 trabalhadores. O número foi citado ontem, pela primeira vez, durante assembléia na porta da fábrica em São Bernardo do Campo (SP). Depois de dar a dimensão do tamanho do corte que pode ser feito - um quarto do efetivo -, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, pediu reflexão aos metalúrgicos e, exatamente por isso, a proposta não foi votada. Voltará a ser analisada em assembléia depois das negociações com a empresa. A próxima reunião com a montadora será dia 25.
O número de demissões que podem ocorrer na Volkswagen supera previsões iniciais, de que o corte atingiria não mais do que o correspondente a um turno de trabalho, o que equivale a 2.400 empregados em São Bernardo do Campo e mais 1.700 em Taubaté (SP). A direção da Volkswagen não quis dar entrevistas ontem.
Durante a assembléia, na entrada de 11 mil dos 19,5 mil que trabalham em São Bernardo, os trabalhadores ficaram sabendo que a proposta da Volks engloba muito mais itens do que eles souberam pela imprensa durante o período em que estiveram em férias coletivas.
A Volkswagen procurou os sindicatos há uma semana, em meio às férias. A princípio, empresa e sindicato divulgaram apenas a intenção de suspender o pagamento do 13º salário, participação nos resultados e abono de férias em 1999, em troca de um dia a menos de trabalho por semana.
A proposta da Volkswagen para evitar demissões inclui ainda, por exemplo, a demissão de trabalhadores de alguns setores para posterior contratação com 60% do salário atual. Também prevê reajuste zero na convenção coletiva deste ano, a redução do adicional noturno e aumento nos custos do trabalhador para alimentação, transporte e convênio médico, entre outros. A montadora quer eliminar até os ônibus que circulam na fábrica.
O discurso dos sindicalistas ontem, na porta da fábrica, começou com a apresentação de um quadro da crise mais aguda da que havia no final do ano passado, quando a Volks ameaçava demitir 10 mil. O presidente do sindicato, Luiz Marinho, criticou a política do governo, a alta dos juros e concluiu que as negociações serão muito mais difíceis porque o mercado encolheu. As negociações do ano passado se deram em meio a uma produção anual de mais de 2 milhões de veículos. A previsão para 1999 é de pouco mais de 1,4 milhão de veículos.
Marinho adiantou que o sindicato já não aceitou, na primeira rodada de negociações, o parcelamento do 13º deste ano, o cancelamento do pagamento da segunda parcela de participação nos resultados de 1998 e nem tampouco a o suspensão do reajuste para a renovação do contrato também deste ano, que deve ocorrer este mês. A direção da Volkswagen havia incluído estes itens na proposta inicial.
O discurso do sindicalista foi cauteloso. A proposta foi detalhada com cuidado e não houve votação. Uma votação agora pode ser irreal; precisamos pensar um pouco porque a situação é difícil, disse em cima do carro de som. Marinho pediu para os trabalhadores refletirem sobre a oferta.
Seria muito fácil votar e conseguir uma rejeição logo hoje, explicou Marinho, após a assembléia. Mas o problema é muito maior, envolve até investimentos aqui e na Argentina, disse, sem detalhar o que mais está em jogo. Precisamos saber como é esse jogo de xadrez, limitou-se a dizer. Os sindicalistas sabem que a maior montadora do Brasil ainda tem que definir o destino de investimentos em novas linhas de produção de veículos e componentes. Isso inclui até o próximo projeto de carro pequeno, que substituirá gradativamente o Gol.


