Vieira vê 'nova postura' do BC nas investigações do Bamerindus
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sexta-feira, 25 de maio de 2001
Ruth Meira De Londrina 
A confirmação pelo Banco Central de que houve irregularidades na administração da massa falida do antigo banco Bamerindus é sinal de mudança de postura da instituição para José Eduardo de Andrade Vieira, ex-proprietário do banco paranaense, que desde o início do processo protesta contra operações feitas pelos interventores designados pelo Banco Central (BC). A atual direção do BC está sendo mais séria e profissional na condução do caso. Houve um grande avanço, diz o ex-ministro, que comandou a pasta de Indústria e Comércio no governo Itamar Franco (92 e 93) e de Agricultura na primeira gestão de Fernando Henrique Cardoso.
Documento emitido por técnicos do Departamento de Regimes Especiais (Deres), do Banco Central, confirma parte das denúncias de fraudes na liquidação do banco paranaense. A investigação foi pedida pelo diretor do departamento, Carlos Eduardo de Freitas, a partir de denúncias anônimas recebidas contra os ex-liquidantes do banco, Gilberto Loschilha e Flávio Siqueira. Um ano e meio após o início das investigações, o relatório recomenda encaminhamento de pelo menos uma denúncia ao Ministério Público com base na Lei do Colarinho Branco.
É o caso da empresa Trescinco Distribuidora de Automóveis, com sede em Cuiabá, que devia R$ 21,7 milhões ao Bamerindus e renegociou a dívida com os liquidantes do banco por R$ 14,5 milhões, oferecendo 14 imóveis que, em avaliação posterior, não custariam mais do que R$ 8,9 milhões. Na avaliação pedida pelo Bamerindus, observa-se uma variação negativa de 97,36%. Se o Ministério Público acolher a tese de crime contra o sistema financeiro nacional, poderá pedir a prisão dos envolvidos por prestação de informações falsas numa liquidação. A pena é de até 8 anos de prisão.
Os fiscais estão investigando casos em que houve grande defasagem entre a data de pagamento do devedor e o correspondente crédito na conta corrente do Bamerindus. O contrato firmado com o HSBC estipula o prazo máximo de cinco dias úteis para que o repasse seja feito. Apesar disso, uma dívida de R$ 65 mil paga pela Postes Cepral Ltda. em 17 de agosto de 1999 só foi creditada para o banco em 25 de outubro, dois meses depois. Os atrasos se repetiram em 14 acordos entre 75 contratos analisados, aponta o relatório.
O Banco Central apura casos de descontos generosos dados nos pagamentos de dívidas de empresas junto ao antigo Bamerindus e que passaram a ser creditados ao Tesouro Nacional, uma vez que o banco está em processo de intervenção, teve a parte boa vendida para o HSBC e a parte podre incorporada pela União. O Banco Central praticamente pagou para os ingleses ficarem com o segundo banco privado do Brasil, prejudicando diretamente os seus acionistas minoritários e todos os brasileiros. Quem vai pagar o prejuízo do País?, pergunta Vieira, apontando o ministro Pedro Malan e o ex-diretor do Banco Central, Gustavo Loyola, como responsáveis diretos pela operação. Os ingleses são apenas piratas internacionais que se aproveitam da corrupção em países de Terceiro Mundo para ganhar dinheiro, afirma Vieira.
Ele diz que espera calmamente o BC chegar às conclusões a que uma investigação séria conduzirá. Na gestão de Armínio Fraga, ele diz que o trabalho ganhou força e passou a ser feito de forma profissional. Tive o apoio do corpo técnico e de gente séria e competente dentro do Banco Central. Até então, não havia interesse na apuração das denúncias, afirma. Segundo ele, o diretor de normas do BC, Cláudio Mauch, à época da intervenção do banco, é hoje consultor do banco inglês HSBC com salário em torno de R$ 20 mil. O Gustavo Loyola, que então dirigia o BC, atualmente também dá consultoria ao banco, acusa. Com assessorias como estas, o único ganho que o HSBC pode ter é o acesso a informações privilegiadas.
Vieira diz que, quando o Brasil tiver um governo sério, isso tudo vai ser colocado a limpo. Ele lembra que o Bamerindus, segundo banco privado brasileiro na época da intervenção, pagava R$ 300 milhões em impostos ao ano, tinha as segundas maiores contas de energia elétrica e telefônica do Paraná, mantinha 30 mil empregos em 1.400 agências no País e estava na vanguarda tecnológica do setor financeiro. Roubaram o Brasil, acusa. Se o Banestado foi vendido por R$ 1,6 bilhão (para o grupo Itaú, no ano passado), quanto valeria o Bamerindus? Entre R$ 2 bilhões ou R$ 3 bilhões, pelo menos. Se o rombo no banco era de R$ 1 bilhão, como o BC indicou na época, é só fazer as contas para ver o presente que os ingleses ganharam.


