Quem iniciou o ano tendo como uma das metas colocar as contas em dia festejou o resultado surpreendente da primeira reunião de 2016 do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, que cortou 0,75 ponto percentual a taxa básica de juros, estabelecida, desde então, em 13% ao ano. Essa euforia, porém, de acordo com os especialistas, pode não se justificar para os inadimplentes que procuram renegociar seus débitos em um cenário sólido de queda de juros, mas repleto de incertezas em relação a fatores como desemprego e a retomada da atividade econômica nacional.

Aliás, a mesma conjuntura que permitiu ao colegiado decidir por unanimidade um corte nesse patamar, o que não era feito desde abril de 2012, também respalda a cautela dos bancos em oferecer abatimentos mais atraentes para seus devedores. "As instituições financeiras sempre têm interesse em receber e vão buscar um caminho. Porém, as condições dessa negociação trazem a desconfiança na economia brasileira, principalmente se a renegociação da dívida envolver parcelamento. O cliente apresenta um risco em função de fatores que independem da vontade dele como perder o emprego ou reduzir a renda familiar porque aumentou a comunidade (familiares, etc) que depende do orçamentos do sujeito", observa a economista-chefe do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) Brasil, Marcela Kawait.

"Os juros na ponta só devem cair quando o tomador de crédito apresentar um menor risco. No final das contas, todos nós pagamos uma taxa altíssima, ainda mais no cartão de crédito e cheque especial, por conta dos maus pagadores e uma conjuntura ainda desfavorável", acrescenta Marcela.

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Apetite
O coordenador e professor do curso de pós-graduação e MBA da FAE Centro Universitário, André Hayashi, também acredita que, mesmo com a queda nos juros iniciada há três reuniões do Copom, o cliente na ponta não usufruirá de imediato dessa melhora nas condições por conta da conjuntura e de um "spread" que naturalmente as instituições buscam fazer. "Algumas variações até foram anunciadas por determinadas instituições, só que da mesma forma que o padeiro não repassa uma redução no insumo de imediato, o banco também realiza esse spread por um tempo, até que o apetite de uma instituição por aumentar a carteira de clientes novos faz com que ela pratique condições melhores", explica o especialista em finanças e mercado de capitais.

Para Haiashi, os inadimplentes (pessoas físicas ou jurídicas) estão na direção certa ao barganharem uma condição melhor na renegociação, diante de uma tendência de queda na taxa básica de juros. "O banco vai ao mercado para emprestar dinheiro a seus credores e a taxa de captação paga por ele, o CDI (Certificado de Depósito Interbancário), é arbitrada pela taxa básica de juros. Se cai a Selic, cai o CDI e o preço do dinheiro também. Logo, a instituição reúne margem para oferecer uma condição melhor para quem está querendo renegociar", explica.

Bancos
O Banco do Brasil, por exemplo, no mesmo dia do anúncio da Selic, em 11 de janeiro, divulgou que suas linhas de crédito para pessoas físicas e jurídicas teriam uma alteração nos juros praticados. Para pessoas físicas, o rotativo do cartão de crédito baixou em quatro pontos percentuais ao mês e o cheque especial, em 0,09 ponto percentual ao mês. No caso de pessoas jurídicas, desconto de cheques, antecipação de crédito ao lojista e desconto de títulos apresentaram uma redução de 0,25 ponto percentual ao mês.

O Itaú Unibanco, em função de estar na época de divulgação de balanço, respondeu apenas que adota diversas medidas para auxiliar seus correntistas a manterem suas dívidas em dia.

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