O veranico de julho inverteu as expectativas do mercado de boi gordo. Estava sendo esperada uma desova de animais este mês, com a queda de temperaturas e excesso de umidade, mas a mudança do tempo surpreendeu e o pecuarista está segurando o boi no pasto. Em função dessa decisão, a arroba do boi subiu 12,5% nos últimos dez dias e o preço do gado de reposição ficou acima das previsões para essa época do ano.
O clima atípico favoreceu a rebrota de pastagens e os pecuaristas decidiram segurar o boi no pasto, fato que provocou a redução da oferta para abate, avaliou o médico veterinário Adélio Borges, do Departamento de Economia Rural, órgão da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento. Com isso, o preço do boi gordo, que estava oscilando entre R$ 24,00 e R$ 25,00 a arroba, entre maio, junho e início de julho, subiu para R$ 27,00 a arroba no Paraná. Em São Paulo, a arroba do boi está cotada a R$ 28,00. Segundo o técnico, o clima provocou a antecipação de preços que estavam previstos somente para setembro, pico da entressafra.
Além do clima favorável, o pecuarista está retendo o boi no pasto à espera de um momento mais propício para a reposição do gado. Borges destacou que a influência do clima se estendeu também para o gado de reposição, que mudou o perfil de comercialização. O bezerro, que custava R$ 200,00, baixou para R$ 170,00 no período mais frio. Agora, com o clima mais quente, os pecuaristas que comercializam bezerros e boi magro para reposição voltaram a pedir acima de R$ 200,00 a cabeça.
Adélio Borges destacou que existem pecuaristas com mais de 2.000 cabeças pesando entre 18 e 20 arrobas, prontas para o abate, e não vendem porque está muito caro para repor. ‘‘ Enquanto o clima está propício, eles vão aguardar uma melhora na relação de troca’’, explicou. Essa estratégia favorece o pecuarista em caso de nova queda de temperatura, porque vão comprar o gado de reposição mais barato. Isso porque os animais com idade inferior a 3,5 anos perdem peso com mais velocidade, enquanto o boi terminado com idade acima de 3,5 anos tem uma capa de gordura que o protege do frio e a perda de peso ocorre de forma mais lenta.
Se a temperatura cair novamente, conforme a previsão de um inverno rigoroso, deverá ocorrer maior oferta de animais para abate e os preços do boi gordo podem cair, com reflexos no varejo em função da demanda fraca. Borges explicou que o cenário econômico não prevê nenhuma perspectiva de aumento salarial para aquecer as vendas e além disso a carne vermelha está sofrendo a concorrência da carne de frango, cuja oferta está maior no mercado em decorrência da queda das exportações para os países asiáticos.
Para se ter uma idéia, em regiões como o norte do Paraná, onde o consumo de carne de gado é mais tradicional em relação ao consumo de carne de frango, as avícolas estão vendendo o produto por menos de R$ 1,00 o quilo, como estratégia para criar o hábito no consumidor, disse Borges.
A sustentação de preço do boi gordo nos níveis atuais, na opinião do técnico, pode ocorrer somente com mudanças no cenário político, com o governo federal soltando as rédeas da economia para irrigar o mercado.‘‘Se houver melhora nesse sentido, o mercado poderá pagar até R$ 30,00 a arroba em setembro’’, disse Adélio Borges.ArquivoAbate adiadoO boi fica no pasto por mais alguns dias, já que a umidade ajuda. O pecuarista discute preçoVânia Casado

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