Vendas no comércio caem 2,5% e têm pior março desde 2003 (5)


NICOLA PAMPLONA
NICOLA PAMPLONA

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - As vendas do comércio brasileiro caíram 2,5% em março, já com efeitos da pandemia do novo coronavírus. Foi o pior desempenho desde março de 2003. Entre os oito setores pesquisados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apenas supermercados e produtos de higiene e limpeza se salvaram.

É o quarto indicador dos efeitos das primeiras semanas de isolamento social sobre a economia brasileira. A OMS (Organização Mundial de Saúde) decretou pandemia no dia 11 de março. Nas semanas seguintes, estados e municípios começaram a impor restrições à circulação de pessoas.



O setor de serviços, responsável por 60% do PIB (Produto Interno Bruto), teve queda recorde no mês, de 6,9%. Já a produção industrial, afetada pela queda nas vendas, caiu 9,1%, pior resultado desde a greve dos caminhoneiros de 2018.

Com isso, a taxa de desemprego avançou para 12,2% no trimestre encerrado em março, com 1,2 milhão de pessoas a mais na fila por uma vaga. No comércio, por exemplo, o fechamento de vagas foi o maior da série histórica, iniciada em 2012.

Considerando o segmento de Veículos, partes e peças e materiais de construção, o chamado varejo ampliado recuou 13,7% no mês passado, a queda mais intensa desde o início da série histórica do IBGE, em fevereiro de 2003.

"Março foi bastante impactado pela estratégia de isolamento social adotada em algumas das cidades mais importantes e populosas a partir da segunda quinzena do mês" , diz o gerente da pesquisa, Cristiano Santos.

Entre as empresas que fizeram comentários sobre causas do desempenho, 43,7% disseram que suas receitas foram afetadas pela pandemia. Esse grupo apresentou queda de 23% das vendas no mês, disse Santos.

Na comparação com março de 2019, segundo o instituto, o recuo nas vendas do varejo brasileiro foi de 1,2%. Em 2020, porém, ainda acumulam alta de 1,6%. Em 12 meses, o aumento é de 2,1%.

Santos destacou que a amplitude da variação foi grande em todas as oito atividades, tanto nas que recuaram quanto nas que subiram. "Isso demonstra claramente que a questão da pandemia e do isolamento social teve reflexo muito grande no mês de março."

Atividades que tiveram lojas físicas fechadas registraram grandes recuos, algumas delas com variação recorde. É o caso de Tecidos, vestuário e calçados (-42,2%), Livros, jornais, revistas e papelaria (-36,1%), Móveis e eletrodomésticos (-25,9%) Combustíveis e lubrificantes (-12,5%).

Já aquelas consideradas essenciais se destacaram positivamente. As vendas do segmento de Hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo bateram recorde de alta (14,6%) e as de Artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos subiram 1,3%.

O setor de perfumaria, sabão e limpeza foi um dos únicos que se salvaram do colapso na produção industrial de março, com alta de 0,7% em relação ao mês anterior. Naquele mês, a indústria teve o recuo mais disseminado da série histórica, com queda em 23 dos 26 ramos pesquisados.

De acordo com o IBGE, as vendas de supermercados atingiram em março o maior patamar da história. Já as de artigos farmacêuticos estão apenas 0,1% abaixo do recorde, de novembro de 2019. Na outra ponta, livros, jornais e revistas estão 72,3% abaixo do recorde, de outubro de 2013.

Já os segmentos de automóveis e tecidos venderam em março cerca de metade do volume atingido nos melhores momentos, em junho de 2012 e abril de 2013, respectivamente.

As vendas do comércio recuaram em 26 das 27 unidades da federação, com destaque para Rondônia (-23,2%), Amazonas (-16,5%) e Acre (-15,7%). Apenas São Paulo registrou alta, de 0,7%, impulsionado pelas boas vendas em supermercados no estado.

Os resultados de março foram impactados negativamente apenas no final do mês, quando foram iniciadas as restrições ao funcionamento de comércio e serviços. A expectativa é que em abril, com a maior parte dos estados já em isolamento durante todo o mês, os efeitos sejam ainda maiores.

Na indústria, por exemplo, o nível de ociosidade atingiu um recorde no mês passado, registrando a queda mais rápida de série histórica pesquisada pelo Ibre/FGV.

"É muito incerto. Não se deve fazer agora inferência sobre abril e maio", ponderou Santos. "Pode haver outros fenômenos envolvidos. Pode haver, por exemplo, aprendizado de outras atividades a vender por delivery."

Ele diz ainda que, com o desempenho de março, o setor de supermercados passou a responder por 55,3% do indicador, contra 49,6% no mês anterior. Assim, o aumento em suas vendas pode ter mais impacto sobre o índice final.



Na sexta (8), economistas ouvidos pelo Banco Central para a produção do boletim Focus reviram suas projeções para a retração do PIB de 2020, de 3,76% para 4,11%. O governo deve rever também a sua expectativa, para queda entre 4% e 5%.

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