Ney de Souza




ContrasteRua do centro comercial de Ciudade del Este em dois momentos - em dezembro de 95 e hoje: decadência

A menos de 15 dias do Natal - tradicionalmente o melhor período de vendas do ano -, os comerciantes de Ciudad del Este atenderam na semana passada tão poucos clientes que até sobrou tempo para fazer um balanço antecipado e calcular os prejuízos de 97. A cidade paraguaia na fronteira com Foz do Iguaçu, que já foi considerada o terceiro centro comercial do mundo - atrás de Hong Kong e Miami -, deverá fechar o ano com um movimento 50% menor que o de 96.
Estimativa do Centro de Importadores e Comerciantes de Alto Paraná (Cicap), entidade que reúne os 120 maiores empresários de Ciudad del Este, prevê um faturamento em torno de US$ 2,5 bilhões este ano. Em 96, quando a cidade começou a viver o auge da crise na venda de produtos importados, o faturamento das 7.000 lojas foi de quase US$ 5 bilhões.
Neste ano, o movimento das vendas atingiu seu patamar mais baixo de um gráfico decrescente que começou a se desenhar em novembro de 95, quando o governo brasileiro reduziu a cota de compras no exterior com isenção de impostos - de US$ 250,00 para US$ 150,00. Em 95, Ciudad del Este recebeu 2,3 milhões de turistas (90% deles sacoleiros) e faturou cerca de US$ 6 bilhões. Até a primeira quinzena de dezembro deste ano, entraram na cidade pouco mais de 1 milhão de pessoas.
O movimento de cerca de US$ 2,5 bilhões previsto para este ano é 70% menor que os US$ 10 bilhões alcançados em 1989, auge do ciclo econômico do turismo de compras na cidade fronteiriça, que recebia até 3 milhões de compristas brasileiros por ano. Mesmo assim, Ciudad del Este -a segunda maior cidade paraguaia, com 200 mil habitantes - continua respondendo hoje por 53% da arrecadação de impostos no Paraguai.
Na última sexta-feira pela manhã, a reportagem da Folha percorreu as principais ruas do centro comercial de Ciudad del Este. Mesmo sendo uma sexta-feira (tradicionalmente um dia de bom movimento) e a 15 dias do Natal, os balconistas da maioria das lojas atendiam poucos clientes, o movimento nas calçadas estreitas - onde o pedestre disputa o pouco espaço com barracas de camelôs-era quase tranquilo e os veículos não demoravam mais que dez minutos para atravessar os 552 metros da Ponte da Amizade, sobre o Rio Paraná, que liga o Brasil ao Paraguai.
Em uma sexta-feira de meados de dezembro de 95 ou até de 96, o cenário era totalmente o oposto: lojas lotadas, corre-corre de vendedores para atender todos os clientes, disputa por espaço nas ruas e calçadas e congestionamentos gigantescos na Ponte da Amizade, onde a travessia durava até três horas.
‘‘Em dezembro de 96, vendíamos de 50 a 60 aparelhos de som por dia e agora não vendemos mais que dez’’, contou, sem pressa, Paulo Borges, de 17 anos, vendedor da loja de eletrônicos Discovery. A venda de celulares também foi reduzida em mais de 50% - eram 50 aparelhos por dia no Natal passado e, neste ano, não passam de 20. Às 11 horas de sexta-feira, não havia nenhum comprador no estabelecimento, de médio porte.
Na Greta Shopping - uma loja sofisticada, que vende principalmente bebidas finas -, o movimento caiu 60% neste final de ano, em relação a 96. ‘‘Os brasileiros se endividaram comprando em até 20 prestações e não sobrou dinheiro para gastar aqui’’, analisa o dono da loja, o paraguaio Victor Paez Coll. Os 30 funcionários da loja (que, em 95 empregava 80 pessoas) ‘‘brigavam’’ para atender os poucos clientes que chegavam.
Segundo Charif Hammoud, presidente do Cicap e dono da Monalisa - a maior e mais sofisticada loja de Ciudad del Este -, depois da redução da cota de importação, as principais causas da queda nas vendas são o rigor da fiscalização da Receita Federal brasileira, a recessão provocada pelo Plano Real, a facilitação para a importação de produtos diretamente no Brasil e até os constantes e cansativos congestionamentos na Ponte da Amizade.
A queda drástica nas vendas já provocou uma redução nos preços. ‘‘Muitos lojistas estão vendendo até a preço de custo, para pagar o 13º salário dos funcionários e os fornecedores’’, afirma Hammoud. Levantamento do Cicap aponta uma diminuição de até 60% no preço dos produtos desde o início do ano. De acordo com Hammoud, os preços cobrados hoje em Ciudad del Este são idênticos aos dos grandes centros de compras do mundo, como Miami, nos Estados Unidos.
A Folha apurou que, a partir de janeiro, deverá começar uma onda de demissão em massa no comércio de Ciudad del Este. Dados da prefeitura mostram que uma média de 80 lojas fecham as portas todos os meses. O governo paraguaio já recomendou aos comerciantes que, caso haja demissões, os cortes devem ser iniciados pelos estrangeiros. Cerca de 10 mil brasileiros de Foz do Iguaçu trabalham nas lojas da cidade vizinha.

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