São Paulo - Mais da metade da venda dos supermercados já é a prazo. Depois dos eletrodomésticos, eletrônicos, carros e materiais de construção, agora é a vez de comprar alimentos com pagamento a perder de vista e com cartão do próprio varejista. Há supermercados que oferecem até 70 dias para quitar numa única vez a fatura. Outros parcelam em três vezes e o prazo total pula para 100 dias. Isso significa que o brasileiro pode levar para casa comida hoje e pagar só no ano que vem.
Essa guerra de prazos longos de pagamentos no varejo de alimentos inclui de pequenas a grandes redes. A intenção é fugir do cheque pré-datado. A perda com a inadimplência nessa modalidade de pagamento é elevada no setor supermercadista - oscila entre 3% e 3,5% dos créditos a receber. A aceitação do cartão com prazos longos é uma forma de ter a venda garantida num cenário de margens apertadas.
O gerente-executivo de Parcerias com Varejistas do Banco do Brasil, Eduardo de Oliveira Martins, explica que com o cartão de crédito, o risco de inadimplência é do banco. E que a loja não paga taxa de administração, como ocorreria num cartão de crédito comum. Em contrapartida, o varejista banca o custo financeiro da operação, compensado em parte pelo aumento de vendas e por porcentual dado à rede sobre operações feitas com cartão de crédito em outras lojas.
Para o consumidor, no caso dos alimentos, o risco é que a dívida cresça rapidamente, já que comida é gênero de primeira necessidade. O consultor de dívidas Emanuel Gonçalves da Silva (www.sosdividas.com.br) recomenda cuidado com a compra de comida a crédito e prazos longos especialmente nessa época. Ele lembra que em março anualmente os índices de inadimplência crescem em todas as regiões do Brasil, resultado exatamente do excesso de compras a prazo durante as festas de fim de ano.
''O ideal mesmo seria nem usar o crédito, mas se fizer, faça-o com equilíbrio, com planejamento, pesquise as melhores opções, conserve e preserve seu suado dinheiro e claro, dentro do orçamento, exercite o prazer do consumo conscientemente sem se deixar levar pelos impulsos'', completa.
Vender alimento a prazo é típico do mercado brasileiro, segundo o diretor de Crédito do Wal-Mart, a maior rede varejista do mundo, Givaldo Marinho. Em outros países é possível pagar as contas com cartão de crédito. Mas com cartão próprio e nos moldes dos financiamentos daqui é uma peculiaridade do Brasil'', completa.
A corrida dos supermercados para vender a prazo alimentos foi desencadeada pela estagnação nas vendas. Neste ano, a taxa de crescimento deve ficar abaixo de 1%. Segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), a venda a prazo respondeu por 50,6% do faturamento do setor em 2005. A fatia dos cartões de crédito e das próprias lojas foi de 36,7 pontos porcentuais.

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