O transporte de passageiros no Brasil passa por um movimento vertical, do céu para as rodovias. Enquanto o volume de passageiros cai nas poltronas dos aviões, a venda online de passagens mostra aumento, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) e do site de vendas de passagens online Guichê Virtual.
Com base na compilação dos números das companhias aéreas Avianca, Azul, Gol e Tam, que dominam 99% do mercado doméstico brasileiro, foram realizadas em abril 6,8 milhões de viagens domésticas, 12,2% menos em relação a abril do ano passado.
Enquanto isso, a oferta de poltronas caiu 10,3% no mesmo período. As companhias afirmam que estão realinhando suas ofertas devido à redução na procura e cancelando voos – Londrina, por exemplo, perdeu quatro de seus sete voos diretos para Curitiba este ano, mas Maringá, Foz do Iguaçu e Cascavel também perderam itinerários para a capital paranaense e outras localidades.
Segundo a Abear, em números absolutos, o desempenho de abril foi o pior da aviação doméstica desde fevereiro de 2013 e o pior para um mês de abril desde 2012. Ainda de acordo com a entidade, os resultados negativos ocorrem há nove meses seguidos.
O consultor técnico da associação, Maurício Emboaba, recorda que a demanda por passagens cresceu progressivamente até 2013. A partir de 2014, em que já se detectavam dificuldades econômicas, a procura passou a crescer cada vez menos porque, com desaquecimento da economia, os passageiros de negócios, que compõem mais de 50% da demanda, também reduziram as viagens. "As companhias passaram a contornar isso fazendo promoções para aumentar a demanda, visando quem faz turismo ou visitas. É uma ferramenta tática, mas tem suas limitações. Ninguém faz negócios porque tem promoção", diz o consultor.
Desde o início de 2015, as taxas de crescimento da demanda começaram a cair e, a partir de agosto, passaram a registrar números negativos – ou seja, houve menos passageiros que os períodos comparados. Em agosto do ano passado, a venda de passagens foi 0,6% menor que o registrado em agosto de 2014, mas os resultados negativos aumentaram sucessivamente desde então.
A queda na demanda, aliado ao encarecimento dos custos operacionais das companhias devido ao aumento do dólar, justificam a retração na demanda. "Com os níveis de desaceleração da economia, não há ferramenta de marketing que neutralize os efeitos", diz Emboaba.

Na estrada
Se por um lado a venda de passagens aéreas retrai, o site de vendas de passagens online Guichê Virtual identificou um crescimento de 150% na demanda no mês de abril em comparação com o mesmo período do ano anterior. A startup fundada no primeiro semestre de 2013 não revela os números absolutos de comercialização, mas planeja fechar seu quarto ano de operação com 2 milhões de passagens vendidas, segundo o CEO da empresa Thiago Carvalho. "Como começamos do zero, a maior parte das vendas ocorre agora", diz.
Para a empresa, o cenário econômico favorece a opção pelo transporte rodoviário – tanto que o último feriado prolongado do semestre, Corpus Christi, na última quinta-feira, elevou em 30% a procura pelos serviços do site. "O ônibus sempre foi uma opção. Uma vez que o dólar fica mais caro, sobem os custos para as companhias aéreas e, claro, também para o passageiro aéreo", diz Carvalho.
Ele também reforça que os ônibus oferecem conforto, incluindo a opção por veículos-leito, e não têm o inconveniente de pagar estacionamento dos aeroportos. O site cobra uma taxa operacional, mas, para Teixeira, é mais barato e rápido que o deslocamento até o terminal rodoviário.
A FOLHA procurou, por e-mail, a Viação Garcia, que também detém a Viação Brasil Sul, para comentar a movimentação do setor, mas não obteve retorno até o fechamento da reportagem.

mockup