O estoque brasileiro de soja, no final de outubro, superou em 88% o volume calculado para o mesmo período do ano passado. A diferença indica uma mudança no perfil da comercialização, que neste ano foi mais lenta. ''Os produtores, menos endividados, preferiram distribuir as vendas durante o ano'', analisou a pesquisadora Vânia Guimarães, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), de Piracicaba (SP) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
A diminuição das dívidas dos produtores resulta da adoção das vendas antecipadas. ''Os agricultores deram sorte, porque o preços subiram'', disse, acrescentando que a mudança é positiva, já que o escalonamento das vendas diminui a pressão de embarques no porto e nos fretes durante a safra.
No final de outubro, o Brasil ainda tinha em estoque 8,68 milhões de toneladas de soja remanescentes da produção de 41,91 milhões de toneladas da safra 2001/2002. Entre janeiro e outubro o País exportou 14,94 milhões de toneladas de soja em grão, enquanto outros 18,29 milhões de toneladas foram industrializados para produção de farelo e óleo. A análise considera apenas a produção e consumo deste ano, sem levar em conta estoques de passagem de um ano para outro.
Apesar do estoque maior, Vânia afirmou que o preço do grão não será influenciado. ''A comercialização está praticamente encerrada'', ressaltou. Ela não sabe se o fenômeno se repetirá no ano que vem. ''A probabilidade é alta, pois os produtores estão capitalizados.''
Durante novembro, segundo o indicador ESALQ/BM&F, os preços da soja subiram 5,89% em reais e 5,09% em dólares, no mercado interno. Anteontem, a saca foi cotada a R$ 49,50 à vista. O analista de mercado Seneri Paludo, da AgRural, explicou que os preços se sustentam por causa do período de entressafra e pela valorização do dólar. As negociações, entretanto, estão paradas. ''Os grandes compradores já encerraram os negócios.''
No mercado internacional, o momento é de transição. A expectativa é que, no próximo ano, a produção mundial seja de 188 milhões de toneladas, volume insuficiente para atender a demanda de 192 milhões de toneladas. Por isso, os principais consumidores estão contando com uma supersafra no Brasil e na Argentina. ''Pela primeira vez esses dois países, juntos, vão produzir mais que os Estados Unidos'', afirmou Paludo.
De acordo com o Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (Seab), 93% da área de soja já foi plantada. As lavouras ocupam 3,52 milhões de hectares (ha), superando a estimativa anterior de 3,49 milhões de ha. A produção foi reestimada para 10,49 milhões de toneladas, dos quais 17% já foram comercializados.

mockup