Em um período de sangria de divisas, o Brasil conseguiu ontem atrair cerca de US$ 801 milhões, valor equivalente a R$ 945,7 milhões, pagos por um grupo estrangeiro, o belga Tractebel, pelo controle da Centrais Geradoras do Sul do Brasil (Gerasul), em leilão na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. A Tractebel vai assumir também US$ 1,2 bilhão em dívidas da Gerasul, primeira geradora de energia privatizada pelo governo federal. Assim, o resultado global da venda foi de cerca de US$ 2 bilhões.
Apesar da frustração causada por falta de ágio, pois somente a Tractebel deu lance no leilão, o resultado foi comemorado pelo vice-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), José Pio Borges, e pelo presidente da Eletrobrás, Firmino Sampaio. ‘‘Trazer para o País quase R$ 1 bilhão em um momento como o atual não é de se desprezar’’, afirmou Borges.
Ele ficou satisfeito também porque a Tractebel, que entrou no leilão sem sócios, está inclinada a usar apenas recursos próprios para pagar a Gerasul. O BNDES, na tentativa de atrair interessados, ofereceu previamente financiamento de até 40% do preço mínimo a quem ficasse com a Gerasul.
O grupo belga, que fatura anualmente US$ 12 bilhões e tem lucro líquido de cerca de US$ 1 bilhão por ano, até está examinando a hipótese de usar os recursos do banco - mas segundo o seu vice-presidente internacional, Christian Bebuyck, o mais certo é que use apenas seu próprio dinheiro na aquisição. No final da tarde de ontem a questão ainda estava para ser decidida.
O leilão, no sistema de envelopes fechados, durou apenas quatro minutos, mas o suspense foi grande. Antes de começar a operação, Borges já tinha informado que, dos três grupos candidatos à Gerasul - todos com garantias depositadas na Câmara de Liquidação e Custódia (CLC) da Bolsa do Rio -, na verdade havia, naquele momento, ‘‘um e meio’’ na disputa.
A Tractebel entrava sozinha e usando o nome de Ocirala Participações, e ‘‘possivelmente’’ entraria também a AES Coral, dos Estados Unidos, que tentava uma associação de última hora com outra candidata, a francesa Total Power International.
O leilão começou às 10h02 e, como ninguém fazia proposta, dois minutos depois da abertura o leiloeiro da bolsa, Alexandre Runte, avisou que em um minuto encerraria o recebimento de envelopes. Somente nos dez segundos finais o operador da corretora Dória e Atherino, representante da Tractebel, adiantou-se e entregou o envelope com a proposta da belga ao leiloeiro, para alívio dos representantes da Eletrobrás e do BNDES.
De acordo com Borges, o leilão não foi adiado porque, apesar da crise, tem havido resposta positiva dos investidores aos projetos de longo prazo. Segundo ele, o interesse estratégico continua, independentemente do cenário mundial adverso. E, acrescentou, o custo financeiro de esperar, em nome da expectativa de um leilão com sobrepreço, seria maior do que o de vender agora, sem ágio.
Ele destacou que a Tractebel é um investidor de longo prazo, cujo tamanho é igual ao da própria Eletrobrás, até hoje controladora da Gerasul.
Com o leilão de ontem, a Tractebel ficará com 50,01% das ações ordinárias (capital votante) da Gerasul. Cerca de 8% permanecerão com o Tesouro Nacional, para serem vendidas quando o mercado tiver melhorado, segundo Borges.Ainda de acordo com ele, essas ações poderão ser inclusive compradas pelos controladores atuais. Outros 16% do capital votante pertencem à BNDESPar, subsidiária do BNDES, e o restante está no mercado.

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