A Rússia deve primeiro preencher o vazio de poder que vive neste momento de crise monetária antes de tentar estabilizar o cambaleante rublo, afirmaram ontem analistas. ‘‘Há um completo vazio de poder neste momento... que está na raiz desta crise e que progressivamente vai provocar uma piora na situação em questão de dias’’, afirmou Philip Poole, chefe de pesquisa sobre países emergentes europeus do ING Barings, em Londres.
O primeiro-ministro interino Vicktor Chernomyrdin tem criticado duramente o banco central russo por sua política monetária e um líder parlamentar alertou que poderá ser necessário um controle cambial. O banco central suspendeu as transações do rublo com qualquer outra moeda ontem, um dia depois da troca da divisa nacional por dólares ter sido suspensa.
‘‘O banco central diz que não venderá dólares, ao mesmo tempo ele mantém a banda de negociação, e ainda ao mesmo tempo o rublo também é desvalorizado efetivamente contra o marco (alemão), então (a autoridade monetária) quebra esta banda’’, disse um economista de um banco de investimento de Moscou. ‘‘Nós chamamos isso de delírio’’, afirmou o economista.
A Rússia anunciou no dia 17 que o rublo poderia variar, até o final do ano, dentro de uma banda fixada em 6,00/9,05 por dólar, maior, portanto, que a anterior, que era de 5,27/7,13.
Mas o banco central anunciou anteontem (26) que não seria racional manter grandes intervenções já que ele é praticamente o único vendedor de moedas estrangeiras no mercado doméstico.
Segundo Poole, a cotação real da moeda russa ontem poderia estar em 20 rublos por dólar, perto da banda 13/20 rublos por dólar sugerida para ontem e hoje no pouco de mercado interbancário realizado.
O banco central, que afirma ter vendido bilhões de dólares nos últimos meses para defender a moeda, anunciou ontem que suas reservas em divisas estrangeiras e ouro caíram para US$ 13,4 bilhões no dia 21, de US$ 15,1 bilhões no dia 14. ‘‘É uma boa aposta que eles só tenham US$ 6 bilhões em dinheiro porque uma grande parte das reservas está na forma de ouro’’, afirma Lawrence Austen, do banco de investimento MFK Renaissance.
O caos econômico na Rússia é apenas um sintoma de uma crise política profunda, que se intensificou rapidamente no domingo quando o presidente Boris Yeltsin demitiu o governo (que estava no poder há apenas 4 meses) e readmitiu Chernomyrdin, que já havia ocupado o cargo por cinco anos. A comunidade internacional saudou publicamente o retorno do veterano primeiro-ministro, que tem uma sólida reputação de reformista.
Mas seu tradicional estilo ‘‘devagar e sempre’’, assim como a expectativa de que ele será obrigado a fazer concessões políticas à oposição, vem preocupando até mesmo aqueles que o defendem.
‘‘A situação na Rússia é extremamente desoladora, e eu não estou certo de que o governo tomará todas as medidas necessárias’’, afirmou John Lomax, analista de mercados emergentes no banco de investimentos HSBC, de Londres. Lomax reforçou os apelos de todo o mundo para que a Rússia realize o mais rápido possível as reformas de austeridade e ataque os problemas estruturais de sua economia.

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