Rio de Janeiro Uma eventual paralisação das atividades da Varig poderá causar uma perda de US$ 1,567 bilhão em divisas ao País. Este é o valor da vendas de passagens internacionais feitas pela Varig no ano passado, no Brasil e no exterior. Para evitar o risco, a empresa negocia um plano emergencial que prevê economias de curto prazo de US$ 356 milhões, dos quais US$ 99 milhões viriam de corte de pessoal e da redução em 30% dos salários de empregados. Os valores das vendas de bilhetes internacionais foram informadas à Agência Estado pelo presidente da Varig, Marcelo Bottini. Segundo ele, no exterior foram vendidos US$ 987 milhões e no País, US$ 580 milhões, para vôos internacionais. Já a redução de gastos este ano consta de documento da consultoria Alvarez & Marsal, a que o jornal teve acesso. Além deste plano, credores analisam proposta de compra da Varig Log.
Entre consultores do setor, é consenso que uma eventual paralisação da companhia aérea, hipótese que depois de ventilada durante a semana foi negada pela empresa e por autoridades do governo, provocaria mais problemas no transporte internacional do que no doméstico. No tráfego interno, a Varig tem 18% de participação enquanto TAM e Gol somam 74% e deverão ampliar a oferta de assentos em 30% no ano, conforme projeção da Bain&Company.
''Isso mostra claramente que vão compensar'', diz o especialista da Bain, André Castellini. Num primeiro momento, ''ficaria gente no chão no horário de pico'', mas a situação se normalizaria com a chegada dos novos aviões das concorrentes, ao longo do ano. Um ex-executivo da Varig argumenta que em três a seis meses a situação estaria totalmente normalizada e os fornecedores de aviões procurariam as concorrentes.
Castellini também pondera que o excesso de demanda acabaria, naturalmente, levando as empresas que continuariam no mercado a reduzir tarifas promocionais, aumentando o preço médio praticado. Trocando em miúdos, segundo outro especialista, ficaria mais caro voar. Semana passada, analistas de banco indicaram que o aprofundamento da crise da Varig poderia elevar as previsões de receita para outras empresas aéreas este ano.
No setor internacional, a situação é outra. O peso relativo da Varig no setor externo já encolheu tinha 88% de participação em março de 2003, fatia que foi a 69% no mês passado -, mas a empresa ainda é de longe a maior e tem bases montadas fora. ''No curto prazo, quem vai substituir são as estrangeiras'', diz o consultor da Bain. Outro consultor explica que o risco de uma paralisação abrupta seria o País perder, rapidamente, os direitos de pouso nos aeroportos do exterior, principalmente os mais saturados, para companhias de outros países. A saída seria uma transferência planejada de transferências de direito de vôo e instalações, o que leva tempo.
Na prática, os especialistas acreditam que as empresas estrangeiras absorveriam potencialmente o mercado da Varig nos vôos entre o Brasil e o exterior (tanto nas vendas feitas fora quanto dentro do Brasil). Vale lembrar que quando uma empresa estrangeira vende vôo estrangeiro no Brasil a receita é referenciada em dólar e a divisa não fica no País. Bottini afirma que o espaço de mercado nos vôos internacionais não seria rapidamente ocupado pelas empresas nacionais.
Um ex-executivo da Varig lembra ainda que uma paralisação traria transtornos para todos os passageiros, mas afetaria, especialmente, os que compraram bilhetes para ver a Copa do Mundo, na Alemanha. Ainda que um esquema de contingência fosse montado, a apreensão seria enorme. A Varig é parceira da Lufthansa na rede global Star Alliance. O peso no mercado internacional é um dos argumentos a que a própria Varig lança mão para tentar mostrar a importância de continuar operando.
Na última sexta-feira, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) informou que não trabalha com a hipótese de parada súbita da companhia. Ainda assim, a agência indica que no caso de uma paralisação empresas concorrentes podem endossar os bilhetes e os usuários não ficariam desprotegidos. As empresas nacionais do setor preferem não tratar do assunto abertamente e indicam que um planejamento de contingência desse tipo cabe ao governo.

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