Rio de Janeiro Os varejistas estão vendendo menos do que no ano passado, mas vêm reajustando os preços de seus produtos acima da média do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), o índice oficial de inflação. A pesquisa mensal do comércio, divulgada ontem pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostrou uma queda de 3,82% no volume de vendas em abril, em relação ao mesmo mês de 2002. Em contrapartida, a receita nominal dos comerciantes cresceu 18,44%, na mesma comparação.
No acumulado dos últimos 12 meses, o volume de vendas recuou 2,07%, ao passo que a receita nominal (sem desconto da inflação) obtida com as negociações comerciais no varejo aumentou 10,64%. Com base nos dois indicadores, o economista do Unibanco Andrei Spacov calculou um índice deflator - ou seja, uma espécie de ''inflação do comércio'' - que apontou para alta de 23,10% no mesmo intervalo de tempo. Enquanto isso, a variação medida pelo IPCA ficou em 16,77%.
''Os preços do comércio aumentaram mais do que a inflação. Isso aconteceu porque o IPCA considera uma série de indicadores que não são contemplados no varejo e cujos preços podem ter recuado, como saúde e serviços gerais de lavanderia e cabeleireiro, por exemplo'', disse Spacov. Entretanto, o fato de a inflação do comércio ter sido superior à dos consumidores não significa que os varejistas aumentaram a sua margem de ganhos.
''O lucro é o que o comerciante ganha depois de descontar os seus custos. Não dá para dizer que eles estão elevando seus ganhos porque não sabemos a que índice os seus gastos estão atrelados'', explicou o economista. Andrei lembra que o IPA (Índice de Preços do Atacado, calculado pela Fundação Getúlio Vargas), por exemplo, apresentava variação de 42,7% nos 12 meses encerrados em abril.
O recuo do volume de vendas do comércio registrado em abril representou a quinta queda consecutiva do índice. Em março, o recuo havia sido de 11,35%. O segmento com o maior peso na queda foi o de móveis e eletrodomésticos, que recuou 16,63% e contribuiu com 1,75 ponto percentual para a formação da taxa. O técnico da área de comércio e serviços do IBGE Nilo Lopes explicou que este segmento é muito influenciado pela taxa de juros -a taxa básica está atualmente em 26,5%.
''Por serem mais caros, esses produtos geralmente são vendidos por meio de financiamentos. Quando os juros estão muito altos, este é o segmento que mais sofre'', justificou. Até então, a maior contribuição individual para a formação do índice vinha das vendas dos hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo. Em abril, o setor teve um peso de 0,49 ponto percentual sobre a taxa total, com queda de 1,05% no volume das vendas.
Para o técnico, o resultado da pesquisa reflete o desaquecimento econômico e a queda na renda dos consumidores: ''A pesquisa mostra que as pessoas estão comprando menos em função de todo esse quadro de desemprego, salário médio real em queda e taxa de juro elevada que dificulta as compras a prazo'', comentou.
Segundo o IBGE, as vendas caíram em 24 dos 27 estados avaliados. Os maiores impactos para a formação da taxa nacional vieram de São Paulo e Rio de Janeiro, onde as vendas tiveram queda de 3,89% e 5,52%, respectivamente.

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