Rio de Janeiro - O varejo está disposto a segurar as tentativas de aumento de preços da indústria. O sinal já está sendo dado nos encontros comerciais entre executivos dos dois setores. O Grupo Pão de Açúcar, maior rede de supermercados do País, já alertou as indústrias que não é hora de ''oportunismo'' ou de ''tirar vantagem'' do início de reação da economia, com tentativas de viradas de tabela de fim de mês. ''Não é hora de oportunismo, mas de aproveitar a oportunidade de retomada de crescimento e deixar voltar o consumo'', disse o diretor-comercial do Grupo de Pão de Açúcar, Cesar Suaki dos Santos. O executivo explica que o varejo tem o papel de ''pára-choque da economia'', no sentido de amortecer os riscos de aumento de preço.
O executivo diz que, numa mesma semana, foram apresentadas à empresa propostas de aumentos de preço entre 8% e 12,8%, sob a alegação de pressão de custos. Suaki preferiu não comentar o nome das empresas, mas explicou que a estratégia da rede tem sido o convencimento de que não era hora de tirar vantagem.
Na prática, segmentos da indústria de alimentos, eletrodomésticos e higiene e limpeza vêm indicando a necessidade de reajuste de preços. O aumento no custo de embalagens é um dos problemas apontados. No grupo dos bens intermediários, os produtos siderúrgicos já acumulam altas de preços ao longo do ano. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), o preço do aço já subiu mais de 40% no atacado desde janeiro.
O coordenador de Análises Econômicas da FGV, Salomão Quadros, afirma que, de fato, a indústria vem recebendo pressão de custos e tentando recompor suas margens. Mas não consegue porque os varejistas ''estão resistindo e até barrando um pouco este processo''. ''Agora, é briga de 'cachorro' grande'', comenta Quadros.
Na quarta-feira, a Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros) divulgou que ''nas próximas semanas'' os eletrodomésticos deverão ficar mais caros por conta ''da grande defasagem de preços acumulada pela indústria este ano, da forte pressão de custos de insumos como o aço, plástico e vidros e também das mudanças nas regras do PIS e da Cofins''. A previsão é de alta entre 7% e 11%.
Para o fim do ano, a Perdigão e a Sadia admitiram, na semana passada, que os preços das aves e suínos poderão subir, em razão da perspectiva de elevação da demanda interna e do ritmo das exportações. Já a Johnson & Johnson está monitorando o avanço de custos e prevê que poderá vir a fazer reajuste até o fim do ano, informou o diretor de Vendas, José Vicente Marino. Além do avanço do petróleo, pode haver aumento no custo de mão-de-obra.

mockup