Varejo paranaense inicia 2026 com retração de quase 2%
Pesquisa da Fecomércio PR atribui queda no desempenho aos juros elevados e ao aumento do custo de vida causado pelos conflitos no Oriente Médio
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Pesquisa da Fecomércio PR atribui queda no desempenho aos juros elevados e ao aumento do custo de vida causado pelos conflitos no Oriente Médio

O desempenho do varejo nos dois primeiros meses de 2026 foi de retração. As vendas do setor em janeiro e fevereiro caíram 1,6% na comparação com igual período do ano passado. O recuo é atribuído a uma postura mais conservadora dos consumidores, pressionados pelos juros altos, que encarecem o crédito, e pela instabilidade global decorrente do conflito no Oriente Médio, que aumenta os custos da logística de produção. Os dados fazem parte da Pesquisa Conjuntural do Comércio, elaborada pela Fecomércio PR (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Paraná). Apesar do início de ano com índices desfavoráveis, a expectativa é de recuperação nos próximos meses.
Em fevereiro, um mês que além de ser mais curto ainda combina o período de férias escolares com feriadão de Carnaval, teve retração de 4,53% nas vendas do varejo quando comparado a janeiro. Entre os segmentos mais afetados no acumulado do primeiro bimestre, o setor de vestuário e tecidos registrou a maior queda, de 16,36%. Na sequência aparecem óticas, cine-foto-som, com retração de 11,20%, e materiais de construção, com recuo de 7,33%. Na contramão do mercado, as lojas de departamentos apresentaram desempenho positivo e expandiram as vendas em 14,92% nos primeiros meses do ano.
“Com todo esse cenário de juros elevados que vem se prolongando, como a população recorre ao crédito, com juros mais altos, consome um pouco menos”, analisou o coordenador de Desenvolvimento Empresarial da Fecomércio PR, Rodrigo Schmidt. Ele destacou ainda que a desaceleração no primeiro bimestre é um movimento “natural” porque são os dois primeiros meses logo após o Natal, um período em que, tradicionalmente, o consumo dispara. “A tendência (para os próximos meses) é de recuperação. Não em um nível surpreendente, mas existe essa tendência.”
A pesquisa da Fecomércio PR apresenta resultados regionalizados. Por esse recorte, Londrina se destaca por ser a única a apresentar crescimento, de 1%, em meio a um cenário geral de desaceleração. Maringá teve o pior desempenho, com retração de 8,87%, seguida pela Região Oeste, com queda de 2,33%.
Com o varejo liderando o ranking dos segmentos que mais recuaram, a suspensão da cobrança da taxa de importação de produtos de até US$ 50, formalizada nesta semana pelo governo federal, é um fator que preocupa porque pode reduzir a competitividade dos produtos nacionais. Mas Schmidt disse que ainda é preciso aguardar os desdobramentos dessa medida para mensurar seus impactos no varejo brasileiro. “Ainda não temos como dimensionar os empregos e empresas prejudicados, os prejuízos ao consumo. A gente tem que medir os impactos de como isso vai se desenrolar nos próximos meses. A princípio, principalmente para vestuário, vai haver um impacto.”
Endividamento
Uma outra pesquisa também elaborada pela Fecomércio PR, em parceria com a CNI (Confederação Nacional da Indústria), mostra que depois de uma redução observada em fevereiro e março, o endividamento das famílias paranaenses voltou a subir em abril. Dados da PEIC (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), apontam que o percentual de famílias com algum tipo de dívida cresceu de 84,4% em março para 86% no mês passado.
Apesar da elevação do endividamento, os indicadores de inadimplência mantiveram-se estáveis no Estado. A parcela de consumidores com contas em atraso variou de 15,5% para 15,1% entre março e abril e o percentual de famílias sem condições de pagar seus débitos permaneceu em 3,7%.
Quando observa o rendimento das famílias, a pesquisa revela que as mais endividadas são aquelas com renda mais baixa, com renda mensal de até dez salários mínimos. Nesse grupo, o endividamento ficou em 86,7%, com 15,8% apresentando contas em atraso. Entre as famílias com renda acima de dez salários mínimos, o índice de endividamento foi menor, de 82,7%, com a inadimplência em 11,9%.
A principal dívida é no cartão de crédito, citado por 93,2% das famílias endividadas. Na sequência, mas bem distantes, estão os financiamentos de veículos (7,6%) e imobiliário (6,5%).
Inadimplência em Londrina cresce 8% em abril, mas cai quase 30% no ano
As negativações aumentaram e as regularizações de dívidas caíram em Londrina no mês de abril e o SPC/Acil (Serviço de Proteção ao Crédito da Associação Comercial e Industrial de Londrina) computou alta de 8,2% no índice de consumidores com nome sujo na cidade na comparação com abril de 2025.
No acumulado do primeiro quadrimestre deste ano, no entanto, o índice de pessoas que tiveram o nome incluído no cadastro de devedores baixou 27,8% ante igual período de 2025. “Apesar da piora pontual no mês de abril, o nível de entrada na inadimplência em 2026 ainda permanece menor do que em 2025”, destacou o consultor econômico da Acil, Marcos Rambalducci.
A comparação de abril de 2026 com igual mês de 2025 também mostrou redução expressiva, de 44%, no número de consumidores que conseguiram regularizar suas dívidas e sair da lista de negativados. No acumulado do ano, também houve queda, de 28%, em relação aos quatro primeiros meses do ano passado.
“Os resultados indicam piora no ambiente financeiro das famílias, com aumento das novas negativações, forte queda nas regularizações e estabilidade nas consultas ao crédito. Embora o acumulado do ano ainda permaneça melhor que o de 2025, o mês pode sinalizar uma mudança de tendência em um contexto nacional de elevado comprometimento da renda, com o endividamento das famílias brasileiras atingindo patamar recorde em 2026”, avaliou Rambalducci.


Simoni Saris
Repórter com atuação nas áreas de Economia, Infraestrutura e Agronegócio.


