Varejo já não é sensação das bolsas
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domingo, 22 de fevereiro de 1998
Agência Folha 
Arquivo FolhaLucro certoConsumo em alta no início do Real fazia das empresas de varejo forte opção para investimentos em açõesO setor de varejo, uma das estrelas da Bolsa de Valores no período que se seguiu à implantação do Plano Real, está sendo visto com outros olhos pelos analistas. Olhos mais cuidadosos e seletivos. Isso, graças às mudanças no cenário econômico ocorrido no ano passado, principalmente depois que a crise asiática respingou no Brasil em outubro. Agora, os analistas estão levando em conta o nicho específico da cadeia varejista e as características próprias de cada uma delas.
Antes, tudo era bom em varejo. Qualquer empresa era uma boa oportunidade de compra. Agora não. É preciso selecionar as empresas com uma pinça, diz Fernando Tracanella, analista do Deutsche Morgan Greenfell. Quando o Real foi implantando, vínhamos de um período de grande demanda reprimida e a estabilização da moeda deu impulso às vendas do varejo em 95 e 96, principalmente ao varejo especializado em bens duráveis, diz a analista sênior Aline De Marco Prado, da Lloyds Asset Management, completando que isso deu gás para aos papéis na Bolsa. A analista diz que desde maio de 97 já eram percebidos sinais de desaquecimento do consumo, principalmente de bens duráveis. Um estudo realizado pela Economática revela a mudança de comportamento do setor.
Em 1994, ano de implantação do Real, o setor de varejo, na época representado por três empresas na Bolsa paulista, encerrou o ano com alta de 138,4%, ante uma alta bem mais modesta do Ibovespa, de 14,8% (números foram deflacionados pelo IGP-DI). Em 1996, enquanto a Bolsa subiu 49,7%, o setor, agora representado por cinco empresas, teve valorização média de 38,8%. Algumas empresas, no entanto, tiveram alta muito superior à do Ibovespa naquele ano: Arapuã PN, 126,9%; Lojas Renner PN, 68,3%; e Pão de Açúcar PN, 73%. No ano passado, mesmo com toda a turbulência emanada da Ásia, a Bolsa subiu 34,7%, mas o setor (com seis empresas) caiu 27,9%. Dentro do novo cenário, a comparação entre Arapuã e Pão de Açúcar é ilustrativa.
Arapuã PN foi o papel que mais se beneficiou dos bons tempos de fartura e tem sido o que mais sofre desde a crise. As ações da empresa fecharam 97 com perda de 80,2% e em 98 já acumulam queda de 38,5% (até dia 18 de fevereiro). Em contrapartida, Pão de Açúcar PN ainda conseguiu fechar com pequena alta de 4,9% em 97 e neste ano já acumula valorização superior a 20%. O bom desempenho de Pão de Açúcar é explicado por dois fatores básicos: seu nicho é o preferido pelos analistas dentro do setor de varejo e a empresa está em confortável situação operacional e financeira, dizem eles.
O ano de 98 será favorável para quem trabalha com alimento. Quem comercializa bens duráveis depende muito mais das taxas de juro, diz Tracanella. Pão de Açúcar é a única recomendação de compra que o analista tem em varejo. Para o restante, o conselho é manter. Só não é vender porque os preços caíram muito, o que barateou os papéis.
A maior cautela dos analistas recai sobre as empresas que dependem do crediário para vender. Para elas, a expectativa é de um primeiro semestre problemático. Nesse perfil se encaixa a Globex, controladora da rede Ponto Frio. Já refletindo o desaquecimento do consumo e o aumento das taxas de juro, a empresa apurou um lucro de R$ 49 milhões em 97, praticamente a metade do registrado em 96. O que conta pontos a favor de Globex é a situação financeira sólida da empresa, segundo analistas. A rede é pouco dependente de empréstimos
bancários e, portanto, não sofreu tanto com a alta dos juros. Em 97, Globex PN perdeu 63,8%, mas neste ano acumula valorização de 29,6% (até dia 18 de fevereiro).
Em situação menos privilegiada está a Arapuã. Também dependente do crediário para impulsionar suas vendas, a empresa foi pega no contrapé com a elevação dos juros, pois tinha um grande endividamento. Em seu balancete de setembro de 97, o último publicado, o endividamento bancário líquido da empresa (dívidas de curto e longo prazo menos os recursos em caixa) era de US$ 420 milhões, mais de duas vezes o seu patrimônio líquido, de US$ 184 milhões.


