'Vai aparecer oferta de gasolina barata'
AE O caso dos combustíveis está mostrando que as forças do mercado são muito incipientes.
Considera Não são, não. Os ajustes são normais nessas situações. Em determinados setores, como o de carnes e leite, o ajuste já acontece naturalmente, está tudo azeitado e o governo não tem de mexer com isso. O de combustível, não.
AE A possibilidade de importação de gasolina a partir desse ano vai beneficiar o consumidor?
Considera Será uma revolução no mercado de combustíveis. Uma empresa já pediu licença para importar 30 milhões de litros de gasolina. Quando tiver gasolina barata em algum lugar no mundo, ela compra lá e vende barato e com lucro no Brasil. Outras farão o mesmo, o que forçará a Petrobrás a trabalhar no menor nível possível para enfrentar essa competição potencial. Quando a Petrobrás fixou a redução de 25% na refinaria, não fez nenhum favor ao governo. O corte é resultado da avaliação que ela mesma fez.
AE Quando veremos o efeito da importação nas bombas?
Considera Em breve. Tem um mercado de refino de gasolina excedente no mundo. Então, vai começar a aparecer oferta de gasolina barata. Vai acabar a história de que a gasolina é mais barata em outros países, comparada com o Brasil.
AE Alguém vai para a Arábia, compra essa gasolina ultrabarata e vende aqui?
Considera Lá na Arábia não, porque é barato só para o mercado interno. Para fora, o cartel da Opep dita os preços. Se alguém for comprar num desses países exportadores de petróleo não conseguirá os preços que são cobrados no mercado interno. Há dois mercados internacionais de combustíveis: um da commodity propriamente dita e o mercado spot, que são as sobras dos países produtores que participam desse mercado de commodity. O spot é sobra de comercialização. Vários países já importam essas sobras e ganham dinheiro com isso.
AE Como é que a sociedade continuará convivendo com um cartel como o dos postos de gasolina?
Considera Existem 26 mil postos de gasolina no País. A maioria é competitiva, mas algumas situações indicam a atuação de cartéis. Em alguns casos, conseguimos provar isso. Em Florianópolis, o Ministério Público conseguiu escuta telefônica e mostrou diálogos entre produtores combinando preço. Os integrantes do cartel falavam claramente em matar quem não participasse. Em Salvador, também estamos concluindo uma investigação. Os processos vão para o Cade, que julga e pode aplicar multa de 1% a 30% do faturamento ou mesmo interditar o negócio, fechar o posto. No âmbito criminal, os responsáveis pelo cartel podem ir para a prisão. É demorado. Nos Estados Unidos, com todo o aparato que eles têm, o caso mais famoso de investigação de cartel levou seis anos para ser concluído.





