Advogados e psicólogos engrossam fila em Curitiba, embaixo de chuva, por um emprego temporário
Mauro FrassonCRISE DE EMPREGOCandidatos esperaram horas debaixo da chuva, ontem em Curitiba, para se candidatar a uma das 250 vagas. Salário: R$ 800

Michele Muller
De Curitiba

Cerca de 2 mil pessoas esperaram até duas horas em uma fila, debaixo da chuva, ontem, para se inscrever a uma das 250 vagas de demonstrador e promotor de produtos da Lacta. O número é um pouco inferior ao registrado no ano passado, quando alguns candidatos chegaram a desmaiar sob o forte sol enquanto aguardavam a vez de serem entrevistados.
A empresária Débora Mattos, proprietária da agência de empregos Pró-Eventos – empresa responsável pela seleção dos inscritosá – acredita que a grande procura deve-se à remuneração – de R$ 800 mensais – oferecida a quem preencher as vagas. ‘‘É um valor superior ao que recebem alguns recém-formados’’, afirma. Esse salário, no entanto, só servirá para cobrir despesas de dois meses, pois o trabalho se estende somente até que os ovos de Páscoa sejam retirados das prateleiras das lojas.
O perfil dos candidatos é o que mais chama a atenção de Débora. Ela calcula que perto de 30% das pessoas entrevistadas têm o terceiro grau completo, ou está cursando faculdade. A agência exige apenas segundo grau e dá prioridade àqueles que já possuem alguma experiência como demonstrador.
‘‘É claro que a escolaridade é importante, pois eles devem ter muita desenvoltura e saber conversar com clientes de todas as classes econômicas’’, diz a empresária. ‘‘Mas acredito que aqueles que têm graduação podem se decepcionar um pouco com o trabalho. Muitos psicólogos e advogados entraram na fila e se mostraram dispostos a desempenhar um serviço bem aquém do que sua formação exige. Como estão fora do mercado de trabalho, procuram empregos temporários como esse para que possam quitar algumas dívidas’’, supõe.
A estudante e comerciante Eunice Silva Pinheiro é um desses casos. Cursou até o segundo ano de Educação Religiosa e acabou de passar no vestibular do Cefet para Tecnologia em Móveis. Mesmo assim, está torcendo para que seja uma das escolhidas para vender ovos de chocolate. ‘‘Eu e meu marido estamos numa fase de recessão, e precisamos de uma renda extra. Como tenho 46 anos e sempre trabalhei como autônoma, estou sentindo bastante dificuldade para achar emprego’’, conta.

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