Uso da técnica vai 'baratear' o feijão
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sexta-feira, 18 de dezembro de 1998
Oswaldo Petrin 
Se os agricultores utilizarem a tecnologia disponível para a produção de feijão, as safras estarão garantidas e as ofertas serão regulares, evitando fenômenos sazonais que dão espaço à especulação no sistema intermediário. Irrigação da lavoura e mecanização da colheita são duas variáveis que podem garantir essa normalidade na produção e na oferta.
A irrigação tem dado respostas extraordinárias em todos os Estados onde é adotada. Mas é nos cerrados de Minas Gerais e Goiás que estão as grandes áreas irrigadas. A mecanização da colheita, ainda em fase de implantação, tem
clientes garantidos como a Samambaia, Comércio de Alimentos, uma empresa de produção de feijão em escala que tem como princípio que mais importante que deter a posse da terra é deter a tecnologia de uso da terra. Em terra arrendada ela planta cerca de 6 milhões de hectares de feijão, com uma colheita de 250/230 mil sacas por ano. A Samambaia de um grupo de empresários cerealistas de São Paulo, cultiva feijão no Araguaia, em Goiás, e no Vale de São Francisco, em Minas Gerais
As respostas tecnológicas vão transformar o Brasil em grande exportador de feijão. Quem afirma é o pesquisador José Roberto de Menezes, especialista em doenças do feijão e responsável pelos estudos de viabilidade do cultivo irrigado no cerrado. Menezes também participou do projeto da indústria norte-americana Pickett que está lançando colheitadeira voltada para feijão. Depois de dois anos de testes em diferentes condições, o protótipo está pronto para ser produzido em escala. Colhe em média 20 hectares/dia, com perdas inferiores às da colheita manual (-2%) e uma redução de custos, em relação à colheita manual, de R$ 120,00 para R$ 30,00. A colheita do carioca, para manter qualidade deve ser feita em duas operações, arranquio mecânico (Pickett) e trilha mecânica através de outro equipamento, o Miac.
O produto é embalado em bag, colocado em carretas e transportado diretamente para a unidade de empacotamento e daí para o mercado varejista. Toda operação dura dois a três dias. Produto sai da lavoura e em três dias é disponibilizado para o consumo.
Para Menezes, está havendo uma mudança do perfil da produção de feijão, imposta principalmente pelos fatores mão-de-obra e tecnologia. O arranquio manual de feijão é inviável e esbarra na legislação trabalhista. Por outro lado, o tamanho das propriedades também tende ser maior: com pequenas margens de lucro só a produção de escala viabiliza a atividade. Quinze anos atrás um pequeno produtor que colhesse 100 sacas de feijão teria recurso para o ano todo. Hoje, para sobreviver na atividade cada pessoa tem que produzir 2 mil sacas/ano. Esta relação também está relacionada à rentabilidade da cultura, segundo Menezes
Menezes fala com a autoridade de quem ganhou o Prêmio Agricultura Real pelo Estado de São Paulo, com pesquisa em controle integrado da mancha angular do feijoeiro e manejo integrado do feijoeiro irrigado. É especializado em fitopatologia e trabalhou no Iapar e UEL.
Ao mesmo tempo, o técnico vê com otimismo o futuro do feijão no Brasil. O País deverá ser a maior área irrigada do mundo. Devem crescer as áreas irrigadas de feijão, hortaliças, café e algodão no cerrado, a grande fronteira agrícola brasileira, segundo ele.
O especialista também é otimista com relação à mecanização da colheita e os equipamentos que vão sendo testados e recomendados. No caso do equipamento Pickett, ele foi testado em várias condições das principais regiões produtoras do Paraná. Menezes só não sabe em qual cidade será instalada a fábrica para produção em escala do equipamento. Certamente será num centro que conte com mão-de-obra treinada para a indústria metalúrgica.
Outra observação de Menezes: considerando a importância do feijão para a alimentação, a mecanização está chegando tarde. Em todo o mundo, o feijão movimenta cerca de US$ 20 bilhões/ano. No Brasil são cerca de US$ 2 bilhões, somente no segmento da produção agrícola. Se computado todo o agronegócio do feijão, este valor tem que ser multiplicado duas vezes. É a cadeia produtiva mais dinâmica e de giro rápido do agribusiness brasileiro.
Somos o segundo maior consumidor de feijão do mundo, com 3 a 3,5 milhões de toneladas. Em primeiro lugar vem a Índia (4,5 milhões de toneladas/ano), em terceiro a China (2,7 milhões de t/ano), em quarto, Estados Unidos (1,7 milhão de t/ano) seguido do México, com 1,4 milhão de t/ano.


