O ambiente corporativo ganhou um aliado poderoso. Impulsionadas pela necessidade de eficiência, empresas de diferentes setores estão delegando tarefas repetitivas, análises massivas de dados e a burocracia operacional a sistemas de IA (Inteligência Artificial). Em alguns casos, o emprego da tecnologia resulta em redução do número de funcionários, mas as organizações afirmam que a principal vantagem é o aumento da produtividade por permitir que as equipes tenham mais tempo para se dedicarem a trabalhos que exigem a criatividade, a estratégia e a sensibilidade da inteligência humana.

No escritório de advocacia Amaral Vasconcellos, o uso de uma ferramenta desenvolvida por uma startup londrinense liberou para o desempenho de outras atividades dois dos três advogados que antes ocupavam seu tempo integralmente com a elaboração de petições iniciais, documentos nos quais os advogados apresentam ao juiz os fatos do caso, os argumentos jurídicos e os pedidos do cliente.

Sócio do escritório de advocacia, Daniel Gatzk de Arruda contou que antes utilizava o ChatGPT, mas ao substituir uma ferramenta de uso geral por uma específica para o setor jurídico, pode estabelecer padrões direcionados à advocacia. “A diferença é que quando a gente usa uma ferramenta generalista, não tem uma barreira de proteção que delimita ou padroniza como você deve atuar. Cada vez que você usa, ela vai te dar um tipo de resposta”, comparou o advogado.

Arruda ressaltou, no entanto, que a automação não elimina a participação humana. “Um humano precisa supervisionar os resultados, verificando se o que a IA está fazendo está certo porque isso é sempre importante.”

O contador Marlon Athos Marçal utiliza a IA em seu escritório, Contac Inteligência Contábil, desde 2023. No início, o ChatGPT era empregado com foco na otimização dos processos. Três anos depois, o uso da IA teve um avanço expressivo e a empresa, hoje, investe no desenvolvimento de seus próprios sistemas. “Nós tínhamos 12 sistemas de terceiros. Hoje, são oito e a intenção é que, até o ano que vem, sejam apenas dois. Estamos criando softwares específicos para as nossas necessidades.”

Com o auxílio da tecnologia, Marçal avalia que houve ganho de tempo e de produtividade. “A gente sempre dependeu das empresas para receber documentação, como folha de pagamento e fechamento de balanço. Hoje, a gente não faz mais escrituração, que é o lançamento de nota manual. Tudo é feito via sistema, automaticamente. O analista só faz a conferências das apurações.”

A substituição das tarefas manuais pela IA trouxe uma economia expressiva, com redução de cerca de 70% do trabalho operacional e repetitivo realizado pelos funcionários. Embora, no escritório de Marçal, a tecnologia tenha se mostrado eficaz no desempenho de funções mais básicas, que antes dependiam de estagiários e auxiliares, o empresário afirmou que a ferramenta não veio para baratear o custo final do serviço de contabilidade, como o enxugamento da folha de pagamento. O objetivo primordial, apontou ele, foi elevar drasticamente a qualidade, o tempo de resposta e a adequação do atendimento ao perfil de cada cliente. O robô assume a repetição e a conferência, enquanto o ser humano fica encarregado da estratégia e do relacionamento, contribuindo para a mudança da qualificação exigida dos profissionais, mais analítica e estratégica.

Marçal também apontou como vantagem a superação da dificuldade de personalização dos serviços prestados. Antes da IA, cada cliente demandava a dedicação de trabalhadores para atendimento de suas necessidades específicas, o que tornava o serviço caro e difícil de escalar. “Com a IA, conseguimos personalizações extremamente detalhadas em escala alta e custo baixíssimo. Essa é a grande vantagem para os nossos clientes, fornecemos informações muito específicas sem ter que aumentar os custos.”

A gráfica Midiograf já utiliza IA em seus processos, mas agora está ampliando para outras áreas e intensificando o uso naquelas em que a tecnologia já era uma aliada. Gerenciamento de produção, marketing, programação, dashboards gerenciais, vendas e e-commerce são alguns dos departamentos que irão contar com o auxílio de ferramentas de IA.

O diretor da empresa, Gustavo Benvenho, disse que as inovações tecnológicas implementadas já tornaram realidade a liberação de funcionários para que se dediquem a funções em que o olhar humano é essencial. “Com a IA, esperamos ter ganho de tempo, melhor performance e melhor aplicabilidade do capital humano. Estamos caminhando devagar, sem investimentos pesados.”

Foco no aumento da produtividade

O aumento da demanda por soluções tecnológicas que otimizem os processos dentro das empresas tem impulsionado o surgimento de ferramentas voltadas a resolver os gargalos de nichos bem específicos. A tecnologia vertical representa uma mudança de mentalidade no mercado de software ao trocar alcance em massa pela especialização profunda. Ao contrário de empresas que oferecem ferramentas genéricas, as vertical techs criam soluções direcionadas a um único setor da economia.

Foi com esse olhar para um nicho específico que os sócios Gabriel Amaro Ferraz e Eduardo Mohr criaram a startup londrinense SuperADV, que promete elevar a produtividade nos escritórios de advocacia. A empresa de tecnologia jurídica oferece a automação da redação de peças processuais usando IA.

“A gente solicita aos escritórios os modelos de documentos que eles já utilizavam para fazer as defesas. Eles já têm modelos padrão. A gente automatiza com a IA e ao receber um processo novo, a IA faz a leitura do processo, entende do que se trata e adapta a redação ao cada caso”, explicou Ferraz.

A ferramenta pode ser ajustada a várias áreas do direito, como defesa do consumidor, relações trabalhistas ou previdenciárias, por exemplo e o tempo médio de implementação da versão inicial é de sete dias. Atualmente, os clientes da SuperADV somam cerca de 20 escritórios de advocacia no Paraná e em outros estados. A vantagem, apontou Ferraz, é liberar os funcionários dos escritórios para executarem atividades que exigem o raciocínio humano. “A gente consegue triplicar a produtividade. Nossos clientes conseguem atender um maior número de processos”, afirmou o sócio. “Nosso foco é a área do direito e já estamos trabalhando para lançar novos produtos para essa área.”

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