Usinas são de interesse externo, diz Vidal
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domingo, 11 de fevereiro de 2001
Cláudia Lopes De Londrina 
O professor e físico José Walter Bautista Vidal é um dos maiores especialistas em fontes de energia do País. Com uma língua afiada, ele não poupa governos e projetos como a termolétrica a gás natural, que considera uma barbaridade. Vidal defende a geração de energias por fontes limpas, baratas e renováveis como a hidrelétrica e a biomassa.
Aposentado, Vidal foi professor das universidades federais da Bahia e de Brasilía e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Autor de 11 livros, ele está escrevendo mais dois volumes sobre energia. Para Vidal, que foi Secretário de Tecnologia Industrial do Brasil três vezes, a privatização da Copel é um crime contra o patrimônio público. Na verdade, ele considera a privatização uma internacionalização.
Bautista Vidal foi idealizador do Proalcool na década de 70. Para ele, o programa foi destruído porque transformaria o Brasil numa potência mundial. O professor e físio alerta que, se não cuidarmos de nossas riquezas, podemos ter problemas iguais aos do Iraque. Confira a entrevista abaixo.
Folha O governo brasileiro lançou um projeto de termoelétricas que serão construídas em todo o País. Elas são mesmo necessárias?
Vidal O que o governo está fazendo é uma barbaridade. Estas termoelétricas são a gás de petróleo importado da Bolívia, Peru e Argentina. A Petrobras pagou o gasoduto e agora o governo está montando 49 termoelétricas para usar este gás. O projeto é só uma desculpa para usar o gás importado porque eles não tinham comprador. O gasoduto foi feito dentro dos interesses das corporações de petróleo estrangeiras, que detém as reservas fora do País, e não do interesse nacional. Querem destruir nossa autonomia em energia limpa, com custos reduzidos e em moeda nacional a troco de preços ascendentes de petróleo e controle externo. Com o projeto das termolétricas se formará um cartel controlado por companhias como Texaco, Esso e Shell. Se os produtores internacionais quiserem fazer uma chantagem impondo preços quatro vezes maiores e resolverem fechar as torneiras ficamos sem energia elétrica. Neste caso, o que faremos? Vamos parar as indústrias em todo o Centro-Sul?
Folha Que alternativas o senhor indicaria para as termolétricas?
Vidal Há uma série de alternativas. Uma é usar os potenciais hidrelétricos ainda existentes no País. Mas o que eu acho mais interessante é fazer termoelétricas com gás de madeira em florestas energéticas, com turbinas de alta eficiência a partir da biomassa. Ainda não existem usinas deste tipo no Brasil mas somente em países como Espanha, Suécia e Estados Unidos.
Folha A queima da madeira não é poluente?
Vidal Na queima do petróleo se produz CO2, que também é produzido na queima da madeira. Mas o petróleo produz chuva ácida, além de outros contaminantes. Há uma diferença fundamental entre se produzir CO2, que é a causa do efeito estufa, a partir do combustível fóssil (petróleo) e a partir da biomassa. Em sua formação, a árvore retira CO2 do ar. O CO2 é produzido na queima da madeira, só que a planta retirou este CO2 há pouco tempo e por isso existe um equilíbrio. Já no caso do combustível fóssil, consumimos em uma ou duas gerações uma coisa que levou 400 milhões de anos para se formar, provocando um terrível efeito estufa.
Folha Na sua opinião, qual a melhor alternativa? A hidrelétrica ou a energia de biomassa?Vidal A hidrelétrica tem uma vantagem que é o aproveitamento dos rios. Não é preciso plantar uma floresta, que leva de quatro a cinco anos para se formar no Brasil ao contrário dos Estados Unidos que leva 20 anos. Em primeiro lugar eu optaria por usar nossas importantes disponibilidades de quedas dágua, onde basta fazer uma barragem para se ter fornecimento de energia sem gastar um centavo durante o resto da vida. A segunda prioridade, que também é muito importante, é a partir do gás da madeira. E a terceira, melhor que o gás importado, seria usar o carvão brasileiro ou mesmo o importado da Austrália, Polônia e de várias origens para não ficarmos prisioneiros de um gasoduto de um fornecedor único. Como a hidrelétrica e a biomassa são renováveis e limpas, a opção por uma ou outra depende mais das circunstâncias locais e da distância do consumo. Onde não houver quedas dágua que se plantem florestas. Aliás, o Paraná, que foi devastado, está precisando de um grande reflorestamento porque as árvores preservam o solo e mantêm o equilíbrio ecológico. O Paraná tem uma dívida séria com seu povo por causa da destruição das florestas.
Folha Por que nós não estamos explorando estas alternativas como deveríamos?
Vidal Esta pergunta está sendo feita à pessoa errada. Acho uma estupidez não explorarmos estas alternativas. Eu botaria toda esta gente na cadeia. Não é uma questão de incompetência. Na verdade, há outros interesses envolvidos. E os interesses destas companhias não coincidem com os interesses brasileiros, nem com os do Paraná.
Folha Por que esta obsessão do governo por grandes projetos? São mesmo necessários para fazer frente à demanda de energia que o País terá daqui pra frente?
Vidal Nestes projetos entra muito dinheiro. Entra banqueiro ganhando dinheiro, corrupção e o diabo. Estes grupos que vivem se locupletando (enriquecendo) querem grandes projetos, que envolvem bilhões de dólares e dá folga para desviar bastante.
Folha O Brasil ainda tem muito potencial hidrelétrico para ser utilizado?Vidal Tem sim. Existem potenciais de grandes dimensões mas que eu tenho dúvidas, que são os da Amazônia. Para aproveitar estes potenciais seria preciso inundar grandes extensões. Mas temos ainda um enorme potencial para a construção de usinas de menor porte no País.
Folha O senhor acredita que as fontes de energia poderiam variar conforme o estado, por exemplo, com geração eólica no Ceará?
Vidal O ideal é usar as fontes de energia já existentes na natureza. No Ceará e Rio Grande do Norte há um vento permanente, sempre direcionado e intenso. Ali é um ótimo lugar para se ter energia eólica. Mas não dá para resolver todos os problemas energéticos deste modo. Não tem sentido fazer isso no Piauí, por exemplo. Já a biomassa pode ser instalada em qualquer lugar usando cana-de-açúcar, floresta ou resíduos agrícolas.
Folha O Paraná poderia adotar fontes de energia usando resíduos da agricultura?Vidal Claro que sim. Poderia usar, por exemplo, rejeitos agrícolas do arroz em Anápolis, onde existe grande concentração desta produção. Em Sevilha, na Espanha, existe uma central elétrica utilizando rejeitos de olivares.
Folha O Brasil está precisando gerar mais energia?
Vidal Precisamos gerar mais porque somos um País de baixo poder produtivo e renda per capita baixa. Se não tivermos energia não teremos desenvolvimento nenhum. É a energia que movimenta o mundo, não é o dinheiro. Sem energia não temos indústria, agricultura, transporte, telecomunicações etc. E nós somos disparados, pelas nossas condições naturais, a maior potência energética do planeta. Temos energia em grande quantidade mas que não é aproveitada. O Brasil pode ser o grande fornecedor energético do planeta. Só depende da coragem e valentia dos nossos dirigentes.
Folha Daqui a quantos anos o senhor acredita que vai haver um colapso de energia no mundo?
Vidal Esta é uma pergunta difícil de responder porque depende de decisões de terceiros. O petróleo existente no mundo dá para menos de 30 anos de consumo. Dez países consomem 80% da energia de petróleo produzida. Entre eles, Estados Unidos, Alemanha e Japão. Você acha que eles vão deixar acabar a última gota de petróleo? Pode ser que dentro de dois ou três anos eles digam que ninguém mais vai mexer no petróleo. E aí nós vamos movimentar nossa economia com o quê? Com cuspe? Eles vão querer preservar a sobrevivência deles e vão fazer tudo para isso porque não são bobos.
Folha Em Araucária, a região mais poluída do Paraná, temos um projeto de construção de uma termoelétrica de queima de resíduo asfáltico. Este tipo de usina é muito poluente?
Vidal É altamente poluente. Mais do que a de gás natural porque é uma parte
do petróleo mais pesada, que tem benzeno. Se o projeto for pequeno tudo bem. Mas a termoelétrica for instalada numa região muito poluída é um desastre.
Folha O Paraná é um exportador de energia mas tem projeto de construção de mais cinco termoelétricas. O Estado realmente precisaria construí-las?
Vidal O Estado foi beneficiado por Deus com estas hidrelétricas. Por outro lado, isto significa inundações de zonas agrícolas ricas. Não é por ser exportador que o Paraná não vai gerar mais energia. O Estado tem um compromisso com a nação. Mas a opção de se contruir estas termolétricas a gás é, na minha ordem de grandeza, a oitava entre as existentes.
Folha Com 49 projetos de termolétricas no Brasil haverá gás para todas elas? Isso é bom ou ruim para a economia do País?
Vidal Tem gás sim. Não tem quem compre este gás da Bolívia, Peru e Argentina. O Brasil é um mercado cativo e como único mercado deveria impor condições. Inclusive o custo do gasoduto foi pago pela Petrobras, que não tem nada com isso. Por que as multinacionais não construíram o gasoduto? Por que a Petrobras tem que pagar esta porcaria? O projeto das termolétricas é péssimo para nossa economia.
Folha Com a privatização das empresas de energia como ficará a questão energética no País? O que acha da venda da Copel, por exemplo?
Vidal Não é privatização mas internacionalização. Nenhuma empresa nacional está comprando as geradoras de energia. Nesta internacionalização entram inclusive empresas estatais estrangeiras como é o caso da francesa que comprou a Light, no Rio de Janeiro. Qual é o compromisso que uma companhia internacional tem de fornecer energia aos produtores rurais do Brasil, por exemplo? Você acha que uma companhia estrangeira vai fazer investimentos enormes para que produtores rurais tenham energia elétrica? Este negócio da internacionalização das companhias de energia elétrica é um crime contra a população e contra o desenvolvimento. Qual é a garantia que um governador destes, que tinha no processo de energia elétrica um meio de promover desenvolvimento e riqueza? Ele passa a ser um idiota, um moço de recado das companhias internacionais. A privatização da Copel é um crime contra o povo do Paraná. Quem vai comprar? Não é uma empresa privada do Paraná mas grupos internacionais, que vão fazer o mesmo que os espanhóis fizeram na Bahia. Os espanhóis estão retirando o máximo lucro possível e trazendo empresas espanholas para serem as fornecedores de serviços e equipamentos, destruindo uma estrutura enorme de empresas locais. Um governador que promove um negócio destes é um criminoso contra seu estado.
Folha E o álcool? Seria mesmo a melhor alternativa para o Brasil? Por que o programa não arranca? Por que então o Proalcool não deu certo?
Vidal Foi justamente porque o Proalcool deu certo, e que transformaria o Brasil numa potência energética, é que foi destruído. Foi retirado o crédito dos pequenos produtores de cana-de-açúcar, que deixaram de plantar cana para produzir outra coisa e aí faltou álcool. O País tinha todas as condições para suprir o álcool consumido no Brasil e no exterior. A retirada do crédito foi uma canalhice feita para que nós não ocupássemos um espaço de poder importante no contexto mundial. Você acha que aquela matança no Iraque foi a troco de nada? É que o Sadam Hussein resolveu defender o seu petróleo. Se nós não tivermos cuidado com a riqueza dos trópicos, da Amazônia, também teremos problemas semelhantes no Brasil. O que vai acontecer é que, com o fim do petróleo, o álcool vai entrar mesmo. A dúvida é se será produzido por nós ou controlado por intervenções externas.
Folha O senhor acha que a gente pode rever este projeto.
Vidal Neste governo não. Este governo não vale nada, é um mero moço de recados. Em 1986, 98% dos carros produzidos no Brasil eram a álcool. Hoje, nós estamos produzindo menos do que 1% de veículos a álcool. O aumento do preço do petróleo viabilizaria a volta de uma produção superior a 90%. Mas como a produção de cana leva quatro anos o governo precisaria assegurá-la, caso algum produtor de petróleo resolvesse derrubar os preços.
Folha O que o senhor imagina o que vai acontecer no futuro?
Vidal O petróleo está acabando e os combustíveis renováveis dos trópicos são a única solução do planeta. Ou nós brasileiros tomamos vergonha na cara e conduzimos o País dentro dos nossos interesses ou nós vamos ser massacrados e destruídos e os estrangeiros vão tomar conta do Brasil.


