Washington - A espetacular expansão da produção da soja no Brasil nos últimos anos não resultou de subsídios oficiais, mas beneficiou-se da desvalorização da moeda e da isenção do ICMS para as exportações. Esta é a principal conclusão de um estudo que o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) preparou, a pedido do presidente da Comissão de Finanças do Senado, Charles Grassley.
Republicano de Iowa e plantador de soja na fazenda da sua família, Grassley solicitou o estudo durante uma audiência pública que realizou sobre a agricultura brasileira, em maio, sob pressão do influente lobby agrícola, do qual é o principal porta-voz no Congresso americano.
Na ocasião, os líderes das associações de produtores de soja, açúcar, cítricos e de outros produtos, que já são beneficiados por bilhões de dólares em subsídios à produção e à exportação, não apenas atacaram uma suposta política de apoio oficial à agricultura no Brasil como pediram mais dinheiro público ao Congresso americano para pesquisa e a modernização de comportas dos rios usados no escoamento da produção.
Os ganhos de produtividade e o rápido aumento da produção agrícola brasileira entraram no radar político em Washington há cerca de dois anos. O estudo do USDA tratou especificamente da soja nos últimos cinco anos. O documento informa que, nesse período, houve aumento de 43% da área do cultivo de soja no Brasil e de 66% da produção. ''A forte e incomum espansão no Brasil pode ser principalmente atribuída à desvalorização maciça da moeda brasileira relativamente ao dólar em 2001 e 2002, quando o real declinou 95%'', concluiu o documento. Mantido o ritmo atual de expansão, em mais cinco anos o Brasil atingirá o mesmo nível de produção dos EUA, estimaram os autores do trabalho.
Embora tenham constatado que o governo brasileiro não subsidia a produção de soja, os técnicos do USDA afirmaram que o sistema tributário do País ''desencoraja o uso da terra como investimento e encoraja a produção''. Por outro lado, eles confirmaram como verdadeiras informações amplamente disponíveis na imprensa brasileira segundo as quais , em partes do País, os produtores de soja têm usado ilegalmente, sem pagar royalties, sementes geneticamente modificadas e patenteadas pela Monsanto.
As conclusões do estudo da USDA foram contestadas ontem pela Associação Americana dos Plantadores de Soja (ASA). ''O estudo é extremamente superficial'', afirmou o presidente da ASA, Ron Hech, que , a exemplo de Grassley, também produz soja em Iowa. Segundo Heck, o relatório que o USDA entregou ao senador há dez dias ''é apenas a primeira fase'' do estudo. ''Estamos contentes que o trabalho tenha sido completado, mas queremos conhecer o tema mais a fundo porque existe a possibilidade de que vários programas dos governos federal e dos governos estaduais no Brasil constituem políticas de subsídio à produção.''
A afirmação sugere, no mínimo, que o lobby americano da soja continuará a usar os ganhos da agricultura brasileira como pretexto para manter e ampliar os fartos subsídios que recebe de Washington.

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