Comprar sem ter dinheiro no bolso é fácil para quem possui cartão de crédito. Basta escolher o produto e entregar o cartão ao vendedor. Após uma operação que dura poucos minutos, o consumidor sai da loja com seu objeto de desejo embaixo do braço. O pesadelo só começa quando chega a fatura. Se a pessoa não tem dinheiro para pagar a dívida a vista, se submete a juros de até 12% ao mês que transformam o valor devido em uma ''bola de neve''.
''O problema do cartão de crédito é que as pessoas não sentem, no bolso, a dor da compra. É como se fosse um anestésico'', compara o economista Mauro Halfeld. Ele é autor do livro ''Investimentos'', da Editora Fundamento, que traz dicas sobre como fugir das armadilhas dos juros. Publicado há mais de dois anos, o livro foi lançado em nova edição recentemente.
Para ele, o cartão tem seu lado positivo, sintetizado pela praticidade que proporciona. ''Além do prazo para pagar, evita que a pessoa ande com dinheiro no bolso'', disse. Para utilizá-lo, porém, é preciso ter disciplina para pagar as faturas à vista. ''Quem aceita consumir sem ter dinheiro acaba consumindo menos, porque paga juros'', afirmou.
A disciplina é também a única maneira de forçar as administradoras de cartões e os bancos a reduzirem suas taxas. De acordo com Hafeld, essas instituições só diminuirão os juros quando os investidores quitarem suas dívidas em dia. ''Eles (administradoras e bancos) não abaixam porque tem filas de pessoas dispostas a pagar juros estratosféricos'', criticou.
Para quem já acumulou dívida no cartão e não consegue pagar, a solução é suspender o uso e negociar o débito, pedindo inclusive o parcelamento do valor. ''Quem compra à vista tem uma vida financeira tranquila e consegue por o dinheiro para trabalhar, investindo em aplicações.''
Parcelar o valor devido ao cartão de crédito foi a solução encontrada pela estudante Marisa (nome fictício), de 26 anos, para se livrar do pesadelo que tomou conta da sua vida após se ''enrolar''. Em oito anos comprando mais do que podia pagar, ela acumulou dívidas que chegaram a representar o dobro de seus rendimentos. ''Quando eu comprava com cartão, tinha a impressão que não precisaria pagar'', disse.
Com a fatura em mãos, ela quitava o valor mínimo e continua consumindo. ''Nem gosto de pensar no dinheiro que perdi pagando juros'', contou. O cartão era utilizado para combustível, supermercado e '' futilidades'' como sapatos, roupas, cds e restaurantes.
Marisa está há oito meses sem usar cartão de crédito. Depois de negociar os juros com a administradora, ela conseguiu parcelar a dívida em quatro prestações. ''Falta pagar duas'', comemora. O saldo positivo da história é que ela aprendeu a ter controle sobre sua renda. ''Percebi que comprava muitas coisas desnecessárias. Hoje, quando quero comprar algo, o cartão já não é mais a primeira coisa que me vêm à cabeça''.

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