O mercado paralelo de eletroeletrônicos é um segmento internacionalizado pela diferença na distribuição de renda entre os povos. No Brasil, a distância entre as classes econômicas é tamanha que parecem existir dois países dentro de um mesmo território. Naquele onde a pobreza é maior, o comércio de produtos usados, contrabandeados e pirateados cresce indiscriminadamente a ponto de atrair até mesmo os que pertencem ao outro país, o dos brasileiros com melhor situação financeira.
O celular, por exemplo, quando surgiu, era privilégio de uns poucos abastados. Atualmente, existem milhões de unidades em funcionamento no Brasil, graças ao forte apelo da mídia e da necessidade cada vez maior de se ganhar tempo. A queda na renda do trabalhador e a ganância da indústria, que não aceita diminuir seus lucros, instigou a criatividade do brasileiro que rapidamente enxergou no comércio de celulares usados um grande filão.
A falta de estatísticas não impede a constatação de que esse mercado é crescente em Londrina. De acordo com Jorge Espolador, proprietário de uma loja que compra, vende, troca e conserta celulares, o faturamento caiu entre 30% e 40% nos últimos três meses devido à concorrência. Com base nessa observação, ele acredita que não há mais espaço para novos empreendimentos e que somente os comerciantes sérios sobreviverão.
A alta lucratividade é a maior vantagem de um mercado que também sofre a concorrência dos ladrões e dos comerciantes inescrupulosos. Fábio Gomes é técnico em telefonia móvel e há três meses entrou no ramo de usados. Segundo ele, todo aparelho de segunda mão tem três meses de garantia por lei e sua aquisição gera, em média, uma economia de 50% para o consumidor. Antes de chegar em Londrina, Gomes trabalhou na Bahia, Sergipe, Minas Gerais e São Paulo e acredita que a dificuldade financeira é a principal aliada desses comerciantes, que negociam apenas com dinheiro à vista. ''Não costumo comprar celulares muito modernos porque são mais caros e demoram a sair. O mínimo que pago é R$ 50,00 e o máximo R$ 250,00. No final do mês, o saldo é superior a 100%'', disse Gomes.
Na opinião de Jorge Coimbra, diretor de Marketing da Sercomtel Celular, o mercado de celulares usados não incomoda a empresa que, até pouco tempo atrás, também comprava e vendia aparelhos. ''O consumidor gosta de novidades. Quem oferecer o melhor produto e o melhor atendimento, com certeza, levará vantagem'', disse Coimbra, que a partir de dezembro trabalhará também com a tecnologia GSM (nova tecnologia que permite mais agilidade na transmissão de dados pelo celular).
Para André Moreira Caio, diretor regional da Vivo no Paraná e Santa Catarina, quanto mais celulares no mercado melhor, porque o foco da Vivo é o serviço. Segundo ele, a venda de aparelhos é uma consequência. ''Quanto mais barato ele for, mais acessível será. Nossa única preocupação é com a procedência, que deve sempre ser confrontada com o Cadastro Nacional de Aparelhos Roubados'', aconselhou o executivo.
O diretor comercial da Tim Sul, Maurício Roorda, tem um ponto de vista semelhante. Ele afirma que o mercado paralelo de celulares não afeta o faturamento da empresa, que prioriza a transmissão de voz e dados. ''Desde que o aparelho esteja legalizado, não há diferença se ele é novo ou semi-novo'', conclui.

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