União da Vitória tem mercado imobiliário em ascensão
Regularização e melhorias na infraestrutura do local levam a uma valorização das casas, que hoje estão na faixa dos R$ 80 mil
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sábado, 12 de outubro de 2019
Regularização e melhorias na infraestrutura do local levam a uma valorização das casas, que hoje estão na faixa dos R$ 80 mil
Nelson Bortolin - Grupo Folha 

Dona Alice Maria de Jesus não tem intenção alguma de deixar o Jardim União da Vitória, na zona sul de Londrina, onde mora há 30 anos. Para convencê-la a vender sua casa, seria preciso o comprador oferecer mais que o mercado paga atualmente. “Por R$ 80 mil, não vendo de jeito nenhum”, disse ela à reportagem na sexta-feira (20).
Regularização dos lotes e melhorias na infraestrutura local têm levado a um aquecimento do mercado imobiliário do bairro. “De uns anos para cá, vêm aparecendo mais casas para vender no União. Em média, custam R$ 80 mil”, afirma João César Mariani, corretor da Imobiliária Atual.
De acordo com ele, ainda que tenham se valorizado nos últimos anos, são os imóveis mais baratos de toda a cidade. No Parque Universidade (zona oeste), onde também há bons preços, somente os terrenos custam de R$ 60 mil a R$ 70 mil. Até mesmo as casas dos “Cinco Conjuntos” (zona norte) que foram construídas na década de 1970 e não receberam benfeitoras são mais caras. Custam ao menos R$ 100 mil.
“De uns anos para cá, vêm aparecendo mais casas para vender no União"
A corretora Elisangela Ogasawara, da R10 Imóveis, confirma o crescimento do mercado imobiliário do União da Vitória. “A procura por imóveis está crescendo devido a uma grande valorização da região sul como um todo”, afirma. Recentemente, ela diz ter avaliado uma casa do bairro com dois dormitórios, sala, cozinha, banheiro social, área de serviço e garagem. “Chegamos ao valor de R$ 80 mil”, conta. A locação no bairro está entre R$ 500 e R$ 600, dependendo das condições do imóvel.
REGULARIZAÇÃO
A origem do bairro é uma ocupação que teve início em meados de 1985. Hoje, o Jardim União da Vitória é subdividido pelos próprios moradores em seis setores. E, segundo a Cohab Londrina, somente o 1 e o 2 são regularizados. Os setores que a população chama de 3 e 4 estão inclusos na regularização do setor 2 .
O registro do loteamento do Jardim União da Vitória I, segundo a Cohab, foi realizado em cartório em 1990 e seguiu os limites que os próprios moradores foram estabelecendo nos anos anteriores. Da mesma forma, o União da Vitória 2 foi registrado seis anos depois, em 1996.
No início, a Cohab financiava os imóveis em pequenas mensalidades, com contratos de promessa de compra e venda. Com a lei 9.866/2005, os mutuários ou herdeiros desses contratos, que comprovavam estar ainda morando no mesmo lote, foram beneficiados com escrituras gratuitas.
Segundo o diretor Técnico, Heleno Solano Rabello, a Cohab contratou uma empresa de topografia para fazer o estudo de viabilidade de regularização do União 5 e 6. Os trabalhos ainda não foram iniciados e não há prazo para serem concluídos. “Há famílias que ocuparam terrenos muito íngremes e áreas de preservação, esses não poderão ser regularizados, conta.”
O diretor explica que, por lei, as famílias que ocuparam áreas antes de 2009 têm direito à regularização gratuita. Já as que se instalaram a partir daquele ano precisam pagar pela área. Até 2012, elas recebem descontos que vão sendo reduzidos ano a ano, de 80% até 20%. “Quem ocupou terreno a partir de 2013 tem de pagar o valor integral”, conta o diretor. Mas os lotes são subavaliados em relação ao mercado. Segundo a última avaliação, em meados de 2018, o lote com 120 metros quadrados, custavam em torno de R$ 21 mil.
A HISTÓRIA DO KM 9
O ano era 1985 e o êxodo rural estava intenso, devido à crise cafeeira e à mecanização das lavouras. Os primeiros boias-frias sem trabalho começaram a chegar no km 9, como era conhecido o local onde hoje ficam os jardins União da Vitória. Dona Alice Maria de Jesus não foi uma das primeiras. Quando chegou, uns cinco anos depois, vindo de Tamboara (noroeste do Paraná), já tinha muita gente por lá.
"Paguei 150, mas nem lembro que moeda era”
Durante algum tempo, a família da moradora, que nasceu na Bahia, conseguiu trabalho nas lavouras de algodão próximas de Londrina. No noroeste do Estado, já não havia muitas oportunidades. Depois, dona Alice foi trabalhar como faxineira e os filhos conseguiram empregos na cidade.
“Quando eu comprei, a casa já era de material (alvenaria), mas estava sem reboque. Paguei 150, mas nem lembro que moeda era.”
O que está bem vivo na memória da baiana são as condições de infraestrutura do local há 30 anos. “Não tinha asfalto. Quando chovia, a gente tinha de colocar sacos plásticos nos pés para ir pegar o ônibus, que demorava muito.”
Pouco a pouco, a família foi investindo na casa que, originalmente , não tinha divisões. Hoje, tem três quartos, sala, copa, cozinha e outro cômodo nos fundos. “Por R$ 80 mil, não vendo de jeito nenhum”, diz a moradora.
Ainda mais que, de acordo com ela, o bairro melhorou muito. “Agora, temos farmácia, posto de saúde que fica aberto até as onze da noite, tem o Caic (Escola Municipal Zumbi dos Palmares), as lâmpadas são novas. O asfalto está bom, antes a gente saía tropeçando nas pedras”, relata.
Dona Alice se aposentou há sete anos, mas continuou trabalhando até o ano passado. Precisava fazer um pé-de-meia para o futuro. E conseguiu. Por R$ 8 mil, comprou uma casa de madeira no bairro e, com ajuda do filho, a derrubou e construiu outra de alvenaria, que hoje aluga por R$ 450.
HABITE-SE
Embora no Jardim União da Vitória 1 e 2 quase todos os lotes estejam regularizados, as edificações não estão. Ninguém tem “habite-se”. O secretário de Obras de Londrina, João Verçosa, explica que o bairro foi loteado com base na legislação fundiária, que é baseada nos terrenos e não nas construções.
Ele afirma que, para conceder “habite-se” a uma edificação, a lei de uso e ocupação do solo do município exige que os terrenos tenham ao menos 250 metros quadrados. A única exceção, diz Verçosa, é para as casas geminadas. “Para construí-las, é permitido dividir um lote de 250 metros quadrados em dois.”
"Pessoas foram morar ali porque não tinham opção"
A maior parte dos terrenos do União, de acordo com ele, tem cerca de 120 metros quadrados. E, além disso, não cumprem outro requisito da lei, que é a manutenção de 20% da área permeável.
Verçosa explica que, para conceder o “habite-se” seria necessária a aprovação de uma lei específica para o bairro. “Mas não é o caso. Não podemos comparar o mercado imobiliário do bairro com o de outra região da cidade. No União, temos 30 anos de história de ocupações. Pessoas foram morar ali porque não tinham opção”, afirma.
O secretário diz que a Prefeitura tem feito benfeitorias no bairro o que teria levado à valorização dos imóveis. “Revitalizamos praças, fizemos recape asfáltico e colocamos led. Aliás, o União foi o primeiro bairro da cidade a receber este tipo de iluminação.”


