Uma tarde na garapeira
São três horas da tarde de um sábado. A garapeira do Renato está cheia de gente. A moenda não para, é um copo atrás do outro. Entre uma cana moída e outra, Renato aponta para duas pessoas sentadas nas cadeiras preguiçosas - Olha aqueles dois lá lendo a revista Veja! - e, enfiando mais uma cana na moenda, opina sobre a decantada falta de leitura do brasileiro:
Não é que a pessoa não gosta de ler, é que ela não tem acesso fácil à leitura. Aqui as pessoas chegam e já pegam uma revista ou um livro pra ler. Tem gente que começa a ler e depois volta pra terminar a leitura, revela e se auto define como um pequeno empreendedor cujo objetivo é dar satisfação, momentos de tranquilidade, de lazer e de entretenimento para os meus fregueses que saem satisfeitos daqui, aliás, este foi o motivo que me fez colocar as cadeiras, as revistas e os livros aí.
Enquanto fala, mais dois carros param ao lado da garapeira: um, com seis pessoas, pra tomar garapa; outro pra perguntar alguma coisa e seguir em frente. Ligando mais uma vez a moenda Renato diz que é assim o dia inteiro, é um ponto de informações, as pessoas param, perguntam alguma coisa, outras sentam, leem uma revista, um livro, tomam uma garapa, conversam, é muito divertido o dia aqui.
No pequeno acervo da garapeira àquela tarde havia alguns exemplares das revistas Veja, Marie Claire e Cláudia, além de três livros de Jorge Amado: Tenda dos milagres, Mar morto e O capitão de longo curso. Renato conta que outro livro do acervo, Os miseráveis, de Vitor Hugo, está emprestado a um borracheiro vizinho da garapeira.
Por falar em livro ele lembra o dia em que um conhecido professor e político da cidade parou pra tomar um caldo de cana e se surpreendeu -Quem está lendo, este livro? - ao ver um exemplar de o Mundo de Sofia, do norueguês Jostein Gaarder, sobre a cadeira e mais surpreso ainda ficou com a resposta - Eu! - dada por Renato.
As pessoas acham que, porque é garapeiro, é um ignorante, um desqualificado, incapaz de fazer qualquer outra coisa na vida a não ser garapeiro; um incapaz, da mesma forma que o bilheteiro, o cambista, critica Renato e conta que seu sonho é fazer uma assinatura da Folha de Londrina para colocar o caderno de emprego a disposição de todos, você não faz idéia do que tem de desempregado, dá até dó, as pessoas não têm nem o dinheiro do ônibus pra ir à biblioteca ler um jornal pra procurar emprego.
A conversa está chegando ao fim, a palavra está com Renato que, convicto, abre o coração: Se você perguntar o que mudou na minha vida eu diria que hoje eu sou uma pessoa mais acessível para a família, tenho mais contato com a minha mulher, com os filhos, com os netos, as mudanças foram positivas porque você compartilha tudo com a família, as benesses e as dificuldades, tenho uma vida muito mais participativa, fiquei muito mais feliz, muito mais realizado, passei a fazer mais o que gosto que é pescar com os amigos e sair com a mulher pra ir num barzinho.
Só tudo isso, Renato, ou tem mais alguma coisa boa neste serviço? Enquanto serve o tradicional chorinho para um freguês e recebe o pagamento de outro, o garapeiro segreda outro atrativo do seu trabalho: Aqui você tem mais acesso ao dinheiro, não depende do dia 30, no final do dia tá com um dinheiro no bolso pra tomar uma cervejinha com os amigos... E olha aquela moça lendo um livro, não é legal? Muito legal, não é mesmo? (A.T.)





