São Paulo - Para combater a inflação e resolver uma série de problemas econômicos e sociais, o governo decidiu, em 1986, mudar o dinheiro brasileiro. No dia 28 de fevereiro daquele ano, o governo de José Sarney lançou o Plano Cruzado que, em 2006, completa 20 anos. O Brasil havia passado por uma crise econômica, com uma inflação que atingiu, em 1985, o índice de 255%. A nova política econômica congelou preços e salários por um ano e teve os primeiros meses de grande sucesso.
O povo brasileiro viu a renda crescer e pôde viver um momento de alto nível de consumo, já que os preços pararam de aumentar e os salários haviam recebido um abono de 8%. Além disso, os trabalhadores ganharam o ''gatilho salarial'', ou seja, toda vez que a inflação atingisse 20%, acontecia um aumento automático dos salários.
Com essas medidas, o governo conquistou grande popularidade. Mas, no segundo semestre de 1986, aconteceu o inesperado - desabastecimento geral de gêneros de primeira necessidade. Com isso, o congelamento de preços ficou insustentável. Depois das eleições de 15 de novembro, surgiu o Plano Cruzado 2, com o descongelamento de preços e a liberação dos reajustes dos aluguéis, que acabaram com a euforia da população e geraram revolta. O consumo caiu, as exportações diminuíram, os preços aumentaram e veio a moratória da dívida externa de 1987.
''Foi uma esperança do povo brasileiro, uma euforia total, mas durou pouco.'' É com um misto de frustração e orgulho que Lúcia Pacífico Homem, 70 anos, hoje deputada estadual em Minas Gerais, se recorda dos agitados meses que se sucederam ao anúncio do Plano Cruzado, há quase duas décadas. Na época, ela já presidia o Movimento das Donas de Casa e Consumidores de Minas Gerais (MDC-MG) e se tornou nacionalmente conhecida como uma das mais atuantes ''fiscais do Sarney''. Chegou a se reunir duas vezes em Brasília com o então ministro da Fazenda, Dílson Funaro, que lhe pedia empenho na orientação à população para evitar o desabastecimento de produtos.
''A gente abordava as pessoas nos supermercados para não levar, mas eram carrinhos e mais carrinhos de compra. Ficou tudo muito barato.'' Antes do plano, ela lembra que ''os preços subiam de manhã, de tarde e à noite e não conseguíamos controlar o orçamento doméstico''. Mesmo com o lançamento de outros planos econômicos, sem sucesso, o governo Sarney chegou a seu último ano, em 1989, com uma inflação de quase 2 mil%.

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