O não comparecimento de diversas entidades ligadas ao agronegócio no lançamento do Plano Agrícola e Pecuário (PAP) para a safra 2016/17 – incluindo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) – dá o tom de como o setor avaliou a divulgação das políticas públicas para a próxima safra: uma verdadeira decepção. De forma geral, as entidades alegam que o setor foi bruscamente punido com o aumento da taxa de juros pelo segundo ano seguido, o que representa uma alta considerável nos custos de produção a partir do dia primeiro de julho, além de inviabilizar a tomada de crédito em algumas linhas.
O documento publicado pela Faep para avaliar o PAP mostra o tamanho do descontentamento dos produtores paranaenses. Para a entidade, o aumento de 8% no volume de recursos, atingindo a marca de 202,8 bilhões, não recompõe a inflação do IPCA, acumulada em 10,67% no ano passado. Vale dizer que a entidade, em conjunto com a Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar) e a Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Paraná (Seab), havia enviado com antecedência ao Ministério da Agricultura (Mapa) um documento com mais de 70 propostas ligadas ao plano.

Toque de caixa
"Sempre entregamos a nossa proposta antes do prazo final, consultando entidades desde janeiro, e com toda fundamentação técnica. Este ano fomos surpreendidos com o plano saindo no início de maio, sem nenhuma reunião conosco. O PAP foi feito tecnicamente às pressas para atender a um pedido político. Não foram citados o seguro rural, o médio produtor... Ficou muito claro que o plano foi feito a toque de caixa", salienta o coordenador do Departamento Técnico Econômico (DTE) da Faep, Pedro Loyola.
De forma geral, o PAP mostra um aumento na taxa de juros entre 0,75% a 1,5%, dependendo da linha de financiamento. No caso do custeio da lavoura, a taxa passou de 8,75% para 9,5%. Nas linhas de investimento, os juros ficaram entre 8,5% a 12%, contra 7,5% a 10,5% da safra em andamento. "O setor produtivo esperava a redução das taxas de juros, especialmente na linha de custeio e nos investimentos do PCA e do Programa ABC, o que contribuiria para reduzir os custos de produção no campo. Além disso, os juros de investimento continuarão a inviabilizar a tomada de empréstimos em linhas como o Programa ABC e Programa de Construção e Ampliação de Armazéns (PCA). Eles poderiam ter mantido pelo menos as taxas de custeio".
Em relação aos financiamentos, o documento da Faep aponta que desde o aumento de juros do programa do BNDES no ano passado houve retração significativa dos contratos justificada por quatro fatores. "O próprio aumento de juros inviabiliza a contratação; com a crise do País, os produtores colocaram o pé no freio em novos investimentos; nos quatro anos anteriores a demanda reprimida por crédito de investimento foi atendida com melhores condições de financiamento de juros acessíveis e prazos de pagamento; e, por último, os agentes financeiros se tornaram mais exigentes na concessão de crédito. Isso explica por que a venda de máquinas agrícolas teve reduções superiores a 40% no último ano safra", elenca Loyola.

Pontos positivos
Entre os pontos positivos, a entidade cita que o crédito para custeio com juros controlados aumentou 20%, de R$ 96,5 bilhões para R$ 115,8 bilhões. Outra conquista foi para a pecuária de corte. A linha de investimentos para aquisição de animais para recria e engorda passou para modalidade custeio de 24 meses. "De tudo isso, o importante para o nosso produtor é fazer o custeio da lavoura, já que o investimento pode esperar um pouco. Se o governo tivesse estudado um pouco mais, poderia ter feito uma política para beneficiar o médio produtor, construção de armazéns e o ABC, aproveitando o momento dos cadastros rurais. Estava com a faca e o queijo na mão para fazer um discurso bonito e com medidas efetivas, mas essa pressa toda deu no que deu", complementa o economista.

Imagem ilustrativa da imagem Uma decepção do tamanho do agronegócio
mockup