Um quatrilhão! Doeu?
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de dezembro de 1996
Joelmir Beting 
Por que o Brasil tem a renda mais concentrada do mundo? Porque metade dos brasileiros viveu 30 anos com correção monetária e a outra metade, no mesmo período, com corrosão inflacionária. Os primeiros, com o dinheiro no banco ou no contrato. Os segundos, com o dinheiro na mão, sem correção, sem reposição, sem proteção.
Quando? De 1965 a 1994, três décadas corridas de indexação ampla, geral, irrestrita, informal, sacralizada. A classe média tinha a moeda veloz, corrigida diariamente no banco da esquina. Tinha o patrimônio imobiliário e o carro usado devidamente dolarizados pelo mercado. Tinha salário em carteira. Sem conta em banco nem salário em carteira a classe pobre tinha a moeda podre, completamente podre: correção zero, proteção zero.
E qual foi a inflação acumulada, ponta a ponta, nas três décadas de indexação? Segurem-se nas poltronas: 1,1 quatrilhão por cento! O vírgula um significa 142 trilhões por cento! Uma inflação de 16 dígitos! Doeu? Ninguém tomou conhecimento disso. A correção neutralizava qualquer taxa de inflação. Lembram-se da taxa mensal de 84% ao mês no final do governo Sarney? A caderneta rendeu 87%...
A correção neutralizava a inflação, realimentando a fera. Realimentava, neutralizando. Ela assoprava e mordia; mordia e assoprava. Um processo definido por Mário Henrique Simonsen como causação circular cumulativa paroxística aguda. Foi uma festança nacional bruta. Muita gente ainda hoje morre de saudade da indexação.
Ou será que não? Quebrando a inércia inflacionária da indexação, desde o lançamento da URV, o Plano Real está promovendo, em três anos, uma desconcentração de renda do exato tamanho da concentração de 30 anos. Nesta altura do calendário, já deixamos de ser o último país do mundo em distribuição de renda. Com certeza.
O problema é que os pesquisadores brasileiros da desigualdade não enxergaram a indexação. E os estudiosos brasileiros da indexação não enxergaram a desigualdade. Essa provocação acadêmica constitui o fio da meada do ensaio de 11 páginas que escrevi para a revista Veja, edição desta semana. Título: Os Párias do Quatrilhão.
Onde deploro: Estávamos sentados no maior laboratório social do mundo e não vimos a cobaia. Pior ainda, não vimos sequer o laboratório. Triste.
Secos & Molhados
Concentração 1
- A indexação de títulos e contratos transferiu renda do setor privado para o setor público. O governo passou a emitir uma não-moeda com função de moeda e sem lastro em produto. Indexou as receitas, mas não, integralmente, as despesas.
Concentração 2
- No setor privado, a indexação transferiu renda do setor produtivo para o setor financeiro, meramente especulativo. O patrimônio líquido dos bancos chegou a representar 24% da renda nacional, contra menos de 7% da média internacional.
Concentração 3
- No setor produtivo, a indexação protegeu todas as pessoas jurídicas. Como a correção dos preços foi maior que a do salário, houve transferência de renda do trabalho para o capital. E, no trabalho, dos não-indexados para os contratados.
Concentração 4
- Façamos a seguinte simulação: todo suíço nascido no dia ímpar vai viver os próximos 30 anos com correção plena; se nascido no dia par, com correção zero. Como estará o perfil da distribuição de renda na Suíça por volta do ano 2027? Pois é.


