A economia da China vai continuar em processo de desaceleração porque seu modelo de desenvolvimento é insustentável. E o Brasil tem mais condições que os demais emergentes de ficar, num futuro próximo, com parte dos investimentos que hoje são canalizados para o gigante asiático. A análise otimista é do consultor do Grupo Work, Seres Baum.
Autor do livro ''An insight into doing business in Brazil'', que dá dicas sobre como investir no País, ele esteve na quinta-feira em Londrina a convite da Agência de Desenvolvimento Terra Roxa. No auditório da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil), Baum proferiu a palestra ''Instabilidade global - fatos, oportunidades e estratégias para crescimento''.
''Não temos problemas com nossos vizinhos como tem a Índia. Não somos uma ditadura e não temos uma população envelhecida como a China. Temos abundância de matéria-prima, coisa que não tem na China, nem na Índia. Não temos problemas étnicos-religiosos'', afirma o consultor.
O Grupo Work tem trabalhado desde o ano passado na atração de investimentos estrangeiros para o Brasil, principalmente oriundos dos países desenvolvidos em crise. Confira a seguir os principais trechos da entrevista que Baum concedeu à FOLHA.
O senhor veio a Londrina falar da instabilidade global e de oportunidades de crescimento. Que oportunidades são essas?
Explorar os recursos financeiros existentes em países em crise. Eles têm dinheiro e precisam investir onde há retorno.
E o Brasil está sabendo aproveitar?
Estamos bem posicionados. Precisamos fazer alguns ajustes para este ano. Erroneamente, baseou-se o crescimento do Brasil na exportação de commodities. No momento em que a locomotiva mundial (China) para ou desacelera, causa um impacto aqui. Mas o cenário é otimista para um período mais longo já que o modelo de desenvolvimento econômico da China é insustentável. Em sendo insustentável, os recursos irão para locais onde terão bom retorno.
Em quanto tempo?
Em seis anos o mapa da economia vai mudar.
A China não será tudo aquilo que se diz?
Se ela mantiver o atual modelo econômico baseado na exportação não. Estou convicto disso porque os problemas sociais com os trabalhadores já começaram a surgir. Tiveram que garantir reajuste salarial de 60% para os próximos quatro anos. Estudos internacionais mostram que em 2016 um trabalhador chinês custará o equivalente a 70% do trabalhador americano.
O que vai fazer o salário do trabalhador chinês subir?
No fim do último ano chinês, muitas empresas, como é o caso do Foxconn, sofreram uma evasão de 30% dos seus trabalhadores. A parte desenvolvida da China é a parte leste. Os trabalhadores vêm da parte oeste. Foram para casa passar o fim do ano com a família e 30% não voltaram. Não voltaram porque ganharam um dinheiro e vão continuar a vida com a família. Grande parte dos trabalhadores chineses já não se submete a viver em dois metros quadrados, querem viver num apartamento maior. As greves também já são constantes. Por causa disso tudo, houve um acordo das empresas com o Ministério do Trabalho para implementarem para todas as categorias da indústria o reajuste de 60% em quatro anos, ou seja 15% a cada ano.
Então a vantagem competitiva do custo da mão de obra chinesa deixa de existir?
Isso mesmo. Somado ao imposto de importação e o frete, a vantagem chinesa deixa de existir. Acaba o modelo chinês baseado na exportação. Outro modelo em que se faz crescer uma nação é baseado em investimentos em inovação, em educação e em infraestrutura. A China até o momento tem investido massivamente só em infraestrutura. Estão criando verdadeiras cidades fantasmas para continuar crescendo num ritmo de 10%. O terceiro modelo é baseado em consumo. A economia chinesa não cresce baseada em consumo porque o trabalhador não tem seguridade social. Quem é casado pode gerar apenas um filho. Você é filho único e sua esposa é filha única. Quem vai cuidar dos seus pais, do seu sogro e da sua sogra? Não é o governo, é o filho. E diante desse cenário você reagiria ao consumo ou continuaria poupando para cuidar de seus entes queridos?
Você disse que o modelo brasileiro de exportação de commodities é equivocado. Por quê?
Nós precisamos de mais incentivos à inovação, não depender de tecnologia externa. Temos de ser autossuntentáveis em desenvolvimento tecnológico. Esse é o caminho. O Brasil tem vocação para os três pilares do desenvolvimento: para exportação, para investimento - temos muita coisa a ser feita em infraestrutura -, e para o consumo. Somos como os americanos, totalmente reativos ao consumo. Baixou meio ponto porcentual na taxa da linha branca, todo mundo vai trocar um fogão, uma geladeira. Somos totalmente reativos. Por isso não entramos em crise em 2008.
Mas a questão da indústria não depende só da inovação, do incentivo do governo. Existe a questão cambial também, não é?
Eu diria que a questão cambial é um segundo fator. O Custo Brasil é muito mais importante que o câmbio. Você vai fabricar um produto, não tem recursos próprios e vai ao mercado para viabilizar esse dinheiro. Nossa taxa de juros é altíssima. Para você conseguir pagar você tem de ter lucro. Portanto, o seu produto já vai sair com alta margem de juros embutido na produção.
Para quanto você acha que seria razoável baixar a Selic?
Precisaríamos trabalhar num padrão de 5% pelo menos. Eu particularmente não veria com bons olhos ter uma taxa muito baixa. Porque se for assim, diante da iminência de uma crise, o que mais eu vou baixar? É justamente o problema dos Estados Unidos que já estão com taxa zero? Como eles vão incentivar o consumo?
Nós estamos falando de uma porção de problemas. Por que você vê tantas oportunidades para o Brasil?
Por exclusão. Não temos problemas com nossos vizinhos como tem a Índia. Não somos uma ditadura e não temos uma população envelhecida como a China. Nosso modelo de crescimento não é como o chinês. Temos abundância de matéria-prima, coisa que não tem na China, nem na Índia. Não temos problemas étnicos-religiosos. Então é um local onde o investidor atento vai botar o dinheiro. Mas o ambiente interno precisa ser melhorado, é preciso baixar este Custo Brasil.
E qual o trabalho que o grupo Work realiza na atração de investimentos?
Nós compilamos um banco de dados de 40 mil investidores estrangeiros que têm investimentos fora dos seus países. Por exemplo, da Alemanha temos catalogadas 3.500 investidores. Sabe quantos já estão no Brasil? Menos de 15%. Agora com a baixa do consumo na Europa, a empresa tem uma poupança e aqui estamos precisando de recursos. Por que não trabalhar numa join venture para melhorar a tecnologia do produto brasileiro em vez de pagar juros escorchantes como os nossos. Com um sócio estratégico, o produto fica muito mais competitivo.
Para que tipo de empresas existem essas oportunidaes de join venture?
Empresas de todos os portes. Temos a DHL, por exemplo, que tem 800 mil empregados no mundo, mas também temos outras com 1,2 mil empregados que operam em três ou quatro países. São detentoras de excelentes tecnologias como é o caso de uma empresa israelita que estamos trazendo para o Brasil. Esse banco de dados é nosso e nós estamos contactando individualmente as empresas e convidando-as.
Quando descobrimos que a Terra Roxa (agência que visa ao desenvolvimento do norte do Paraná) tem um trabalho de apoio neste sentido, vimos um casamento perfeito. Vamos fazer workshops no exterior divulgando as oportunidades daqui.

mockup