Um olho na inflação e outro no crescimento
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sábado, 28 de maio de 2011
Fabio Graner<br>e<br>Adriana Fernandes<br>Agência Estado 
Brasília - Os sinais já vinham do governo Lula. Mas no governo Dilma Rousseff, a política monetária conduzida pelo Banco Central do Brasil se aproxima, ainda que informalmente, do modelo do Federal Reserve (Fed, o BC norte-americano). Nos Estados Unidos, o Fed tem a missão oficial não só de zelar pela estabilidade de preços, mas também de buscar o máximo de empregos, ou seja, inflação baixa e crescimento forte. No Brasil, o BC tem oficialmente o mandato de buscar a meta de inflação definida pelo governo. Mas a estratégia mais gradualista adotada neste ano mostra que, na prática, o BC de Dilma opera também de olho no crescimento do País, numa espécie de duplo mandato.
A preocupação do governo em não frear demais o ritmo de crescimento da economia em 2011 está no cerne da decisão do BC em adiar para 2012 a convergência da inflação para o centro da meta de 4,5%. Dilma deixou claro ao País logo no início da sua administração que estava comprometida com o controle da inflação, mas sem sacrificar o maior crescimento econômico obtido no segundo mandato do governo anterior.
A despeito de ter autonomia operacional, o presidente do BC, Alexandre Tombini, e sua equipe estão mais sintonizados com esse objetivo. Aliás, o nome dele foi escolhido exatamente pela avaliação de que Tombini trabalharia nessa direção. Apesar de muitas vezes usar algumas expressões rabugentas típicas de banqueiros centrais como a clássica um pouco mais de inflação não aumenta o crescimento , a prática mostra que o BC acredita que não deve derrubar a atividade econômica para manter a inflação na meta.
Custo
O próprio relatório trimestral de inflação de março foi explícito ao afirmar que uma convergência em 2011 para o centro da meta de 4,5%, diante dos choques de oferta, implicaria um custo muito alto para a atividade econômica e que a boa prática recomendava um movimento mais suave.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, na gestão do ex-presidente Lula defendeu por várias vezes nos bastidores a necessidade de uma meta de crescimento. Essa foi uma das razões também para o governo ter decidido manter em 4,5% a meta de inflação, num embate duro entre Mantega e o ex-presidente do BC, Henrique Meirelles, que queria reduzir o centro da meta para 4%, um patamar de inflação mais próximo dos praticados pelos países desenvolvidos.
Nos bastidores da Fazenda, um PIB abaixo de 4%, número projetado pelo BC para este ano (Mantega projeta 4,5% de alta) é considerado muito ruim. Realmente me parece que há uma dupla intenção do BC a partir deste governo, mais explícita do que tinha no segundo mandato de Lula. Mas é uma dupla meta enganosa. No caso americano, buscar a meta de crescimento existe apenas quando a inflação não é um risco, afirmou o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale.
Ele explicou que o Fed já cometeu erros, nas décadas de 60 e 70, quando estimulou demais a economia, levando a inflação para patamares muito elevados. Mas o Fed sempre tentou controlar a inflação, com diferenças de percepção de cada dirigente em cada momento, afirmou. Para Vale, no caso brasileiro, há um objetivo de manter uma taxa de crescimento de 5% com inflação de 4,5%. Nas atuais condições da economia esses dois números não cabem na mesma equação. Parece-me que inflação de 4,5% se equilibra com crescimento de 3% em 2011 e 2012, mas não parece que será esse o caso, disse. Dá a impressão que o governo coloca pesos iguais para as duas variáveis, o que não é correto. A inflação teria que ser sempre a prioridade e isso significaria sacrificar o crescimento por dois anos, acrescentou.


