Um olhar mais econômico para a cerveja artesanal
Câmara setorial é criada para alavancar produção da bebida; setor é responsável por um faturamento anual de R$ 100 bilhões
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 04 de novembro de 2019
Câmara setorial é criada para alavancar produção da bebida; setor é responsável por um faturamento anual de R$ 100 bilhões
Simoni Saris - Grupo Folha 
O Brasil é o terceiro maior produtor de cervejas do mundo. O setor representa 2% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, gera R$ 25 bilhões de impostos ao ano e 2,7 milhões de empregos, com um faturamento anual da ordem de R$ 100 bilhões. Em todo o País, há mil empresas registradas no Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) e 14 bilhões de litros da bebida são consumidos ao ano. A rápida expansão das cervejarias artesanais, nos últimos anos, ajudou a impulsionar ainda mais os números, que apontam um grande potencial de crescimento desse segmento. Mas para continuar avançando, faltam políticas públicas que apoiem a competitividade do setor e incentivos.

Com a finalidade de discutir os problemas do setor e buscar maneiras cada vez mais eficazes de fomentar essa indústria tão lucrativa quanto promissora, foi instalada, na última quarta-feira (30), em Brasília (DF), a Câmara Setorial da Cerveja, iniciativa que deve movimentar setores da indústria e da agricultura ligados à produção de insumos, além de fortalecer o mercado das cervejas artesanais.
Não há dados no Brasil específicos sobre a economia das empresas artesanais. Sabe-se, no entanto, que na última década o número de fábricas quadruplicou no País. Mas as estatísticas norte-americanas são bastante animadoras e dão uma ideia da importância desse mercado. Nos Estados Unidos, as cervejarias artesanais movimentam atualmente US$ 27 bilhões ao ano.
A composição da Câmara é bastante ampla, formada por entidades representativas de todos os elos da cadeia produtiva, como produtores de malte e lúpulo, importadores e exportadores, associação supermercadista, Sebrae, Abracerva (Associação Brasileira da Cerveja Artesanal), organismos governamentais, e irá discutir a agenda estratégica de todo o setor, representando tanto os grandes quanto os pequenos fabricantes de cerveja nacionais.
“As discussões servirão para a gente fomentar toda a cadeia da cerveja, com a melhoria em processos, produtos, promoção comercial da cerveja brasileira no exterior, tributação mais simplificada, legislação regulatória. Acredito que sentar à mesma mesa para conversar (com todas as entidades representativas) trará uma agilidade grande, um alinhamento de reivindicações. Quando formos cobrar políticas públicas do Legislativo e do Executivo, terá mais peso”, disse o presidente da Abracerva, Carlo Lapolli.
FOMENTO
Para estimular o crescimento do setor, Lapolli aponta três pontos importantes. O primeiro, e que está fora do alcance das entidades representativas, é a melhoria do cenário econômico. A crise que se estende há cerca de cinco anos e o PIB perto de zero influenciam o poder de compra do consumidor e fazem baixar o volume de venda. O segundo ponto é a qualificação, com a melhoria da eficiência, ganho de escala, redução do desperdício de matéria-prima pelos grandes fabricantes, maior eficiência energética e aumento de produtividade, que refletem em mais ganho.
O terceiro aspecto refere-se ao sistema regulatório e fiscal. “Produzir cerveja não é só caro. É muito caro e muito complexo. Temos 27 legislações diferentes. Cada estado tem uma forma de cobrança de impostos e às vezes, a tributação do chope é diferente da de cerveja. Para uma pequena empresa, se o contador não é do setor de bebida e ela paga imposto errado, as multas e juros podem ser muito altos e afetar a sua saúde financeira”, observou Lapolli.
A busca por melhoria tributária em um momento em que se discute a reforma tributária, disse o presidente da Abracerva, pode interferir positivamente no cenário futuro. A Câmara Setorial da Cerveja irá defender a cobrança escalonada de impostos. “Quem ganha mais, paga mais.”
ENTRAVES
O Núcleo de Cervejarias Artesanais Pé Vermelho, da Acil (Associação Comercial e Industrial de Londrina), tem hoje cinco associadas, mas o número de empresas do tipo em atividade no município deve ser maior. Existem cervejarias menores, as ciganas – que terceirizam sua produção -, que sempre estão renovando o mercado, segundo o membro do núcleo e sócio e cervejeiro responsável da Cervejaria Amadeus, Lucas Varéa.
De 2017 para 2018, disse Varéa, o número de cervejarias no Brasil cresceu 30% e a tendência é de crescimento para os próximos anos. Mas a alta tributação, afirmou, é um dos entraves para a expansão da produção nacional. “A margem de valor agregado do nosso produto é de 140%. Uma cerveja de R$ 8 vai ser taxada a R$ 20, o que encarece a produção”, queixou-se, lembrando que há uma pauta do setor para tentar a redução tributária no Estado.
Além da alta carga tributária que incide sobre a importação de insumos, como o lúpulo, que não tem produção nacional suficiente para atender a demanda e 90% são importados da Europa, as cervejarias nacionais têm de lidar com a variação tributária de cada estado. Para o proprietário da Cervejaria Von Borstel, Fernando Soares von Borstel, a alta carga tributária é um enorme empecilho para o avanço da produção artesanal no País. “Quando a gente vende uma cerveja a R$ 12, R$ 4,50 é o custo derivado de impostos. A grande questão é que o produto, em vez de entrar de uma forma mais acessível às pessoas, encarece e a venda acaba segurando um pouco. A cerveja especial no Brasil hoje custa muito caro.”
Segundo von Borstel, vender a cerveja produzida em Londrina para compradores de São Paulo sai mais barato para o fabricante do que comercializar dentro do Paraná. Já para o Rio de Janeiro, é mais caro. “Se a gente conseguisse simplificar o imposto da cerveja ou fazer um imposto para cada região do País e não por estado, iria reduzir o valor das cervejas especiais e o consumo subiria bastante porque o interesse pelo produto é grande.”
Especificamente em Londrina, há um outro obstáculo a ser vencido por quem quer investir nas cervejarias. A questão de zoneamento, destacou Varéa, impede a instalação de empreendimentos do tipo em zona comercial. A solução poderia vir mediante a aprovação de um projeto de lei que permitisse a mudança de classificação das microcervejarias. No lugar de zona industrial 1, como são classificadas hoje, passariam a zona comercial 5. Com alteração, as empresas poderiam instalar-se em áreas de maior fluxo de pessoas, disseminando os brew pubs – bares que produzem sua própria cerveja.


