Decorrido mais de um mês dos atentados terroristas aos Estados Unidos, o que se pode falar sobre as perspectivas para a economia brasileira face às turbulências da economia internacional? Economistas paranaenses analisam o assunto na coluna desta semana.
De acordo com análise do economista e conselheiro do Conselho Regional de Economia do Paraná (Corecon-PR), Luiz Antonio Fayet, ainda estamos vivendo o fervor da crise, é muito cedo para traçar projeções seguras, ''mas uma coisa é certa, que o mundo não vai parar'', afirma. Entretanto, ele destaca alguns fatos importantes que já podem ser considerados: os governos das principais economias do mundo estão reduzindo juros e montando programas de gastos e outros estímulos oficiais para recuperação econômica; no mercado financeiro mundial sobra dinheiro e faltam oportunidades seguras; a crise atinge mais os mercados mais ricos, os produtos na linha de ''bens duráveis e de capital'' (como automóveis, eletrodomésticos e máquinas) e os serviços turísticos; atinge menos os produtos básicos e de alimentação. Os alvos do terrorismo estão localizados quase que totalmente nos países mais ricos e nas áreas conflagradas da Ásia.
Na economia brasileira, Fayet não constata reflexos negativos generalizados e significativos da questão. Com relação aos fluxos turísticos, o economista afirma que há indicações de que o Brasil deverá auferir muitas vantagens. Paralelamente, em termos relativos, acrescenta, o País poderá ser atrativo para os fluxos de investimentos financeiros (não especulativos).
Para o economista e conselheiro do Corecon-PR, Sérgio Martenetz, passado um mês do atentado terrorista aos EUA, a economia brasileira está com mais vitalidade do que se imaginava. Segundo sua análise, o nível de atividades não caiu abruptamente e, a despeito da inquietação internacional derivada do terrorismo e das expectativas regionais pessimistas decorrentes da Argentina, o dólar não chegou a encostar nos R$ 3,00 e a inflação permaneceu sob controle, com pequena elevação nas previsões do ano, de 6,0% para 6,5%.
Quanto ao mercado financeiro, Martenetz avalia que comportou-se de forma serena, com a bolsa de valores apresentando, inclusive, um movimento de alta de 5,85% em outubro (até 17-10-01), valorizando as principais ações do mercado. ''A autoridade monetária foi cautelosa em sua última reunião, mantendo a taxa básica de juros em 19%, sem viés, dentro das expectativas dos agentes econômicos, evitando desnecessários movimentos bruscos no custo do dinheiro, enquanto não se definem as situações de pressão externa'', observa.
Na avaliação do economista Luiz Vamberto Santana, quanto aos aspectos relacionados ao comércio interno, o cenário que se pode vislumbrar para o final de ano tem como pano de fundo, além dos acontecimentos de 11 de setembro nos EUA, outros elementos conjunturais que de algum tempo já vinham preocupando os brasileiros. Ele cita a crise da economia da Argentina que influenciou bastante a desvalorização cambial (relação R$ x US$), taxa interna de juros elevada, dificuldades em alguns ramos da indústria corporificados sob a forma de queda nas vendas e desemprego (caso da indústria automobilística); e o racionamento de energia em grande parte do território nacional prejudicando tanto a estrutura produtiva brasileira quanto os novos investimentos.
Segundo seu pensamento, diversos efeitos psicológicos também contribuíram para ampliar as dificuldades, entre eles, os receios dos investidores, incerteza do trabalhador quanto à manutenção do emprego, adiamento de gastos de maior valor e de compras de produtos não essenciais. Santana destaca que dessa forma, a economia brasileira para o final desse ano deverá respirar por conta do 13º salário, situação que não se diferencia muito do ocorrido no final do ano anterior (2000). Um grande percentual dos consumidores deverá optar pelo pagamento de dívidas já assumidas e as compras deverão privilegiar produtos de baixo valor unitário.
Para outros segmentos, as viagens internacionais serão substituídas por passeios internos vislumbrando-se aí a grande oportunidade para a estrutura turística brasileira: hotéis, estâncias, parques temáticos, pólos turísticos. O que se espera, no entanto é que os preços permaneçam no mesmo nível. As viagens de negócios estão em queda até mesmo por conta das retrações econômicas.
O economista observa que qualquer outra perspectiva passaria necessariamente pela criação de mais empregos, aumento da massa de salários e expansão da demanda agregada, num processo de causação circular e integrada. ''Mas para gerar mais empregos, o sistema produtivo terá que dispor de informações consistentes a respeito de melhoria conjuntural e recuperação do mercado, coisa que não se dispõe no momento'', afirma.
Com relação ao comércio externo, o economista analisa que a economia dos EUA, principal parceiro brasileiro no comércio exterior, já apresentava indícios de redução no crescimento. Os fatos de 11 de setembro só contribuíram para agravar a situação. ''Os produtos brasileiros para exportação se apresentam com valores extremamente baixos para os importadores, por conta da desvalorização da nossa moeda'', enfatiza.
De acordo com ele, pode ser por aí o caminho para aumentar as exportações, desde que a burocracia do governo não atrapalhe. ''Para os produtos agrícolas e de primeira necessidade, a vantagem comparativa do Brasil é grande, mas em alguns países da Europa e Estados Unidos temos que enfrentar a concorrência dos elevados subsídios concedidos por governos locais'', coloca. Finalizando, Santana acredita que os conflitos bélicos no exterior podem estimular a curto prazo uma contenção das importações do exterior, pelo menos até que as coisas se tornem mais claras no horizonte.
Corecon/PR e-mail [email protected]

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