Um mercado sem donos
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de setembro de 1997
Luiz Francisco Trielli 
Os pãozinho francês de 50 gramas é vendido, em média, a 12 centavos nas padarias, o que equivale ao preço de 2,40 reais, o quilo; há segmentos do setor de biscoitos que vendem o cream cracker a 1,90 real o quilo. O pãozinho é feito na própria padaria, não exige equipamentos fabris sofisticados e não tem custo de distribuição e frete, mas está mais caro do que biscoito, cuja produção, colocação nos pontos de venda e comercialização implicam significativo aporte de capital. Esta comparação ilustra com clareza a que ponto chegou o grau de competitividade no setor de biscoitos, um dos segmentos da indústria brasileira em que mais são visíveis os efeitos da globalização.
Na presente década, à medida que a estabilidade da moeda foi se consolidando e o ingresso do capital externo passou a se materializar em investimentos diretos, em áreas produtivas, o mercado de biscoitos vem esperimentando grande e abrupta metamorfose. Até os anos 80, o setor era extremamente pulverizado, com a existência de mais de 100 fábricas no país. Mais recentemente, com a entrada no Brasil dos cinco maiores produtores do mundo, o quadro mudou radicalmente. O número de indústrias está sendo inevitavelmente reduzido, com a fusão e/ou compra de empresas brasileiras por grupos estrangeiros. O mercado passa, assim, por um processo de seletividade.
Na presente conjuntura, muitas empresas, como ocorre também em outros setores de atividades, preferem a certeza de uma saída honrosa do mercado, capitalizando sua marca, sua estrutura industrial, de distribuição e comercialização, numa derradeira operação de venda a um ou outro grande grupo estrangeiro. Não se trata, aqui absolutamente, de condenar essa postura, pois fusões, incorporações e aquisições de empresas sempre foram fenômenos normais, constituindo-se, agora, em tendência mais acentuada na economia global. Não é o caso, também, de olhar com xenofobia os investimentos estrangeiros, especialmente aqueles voltados a atividades produtivas, que geram riquezas, empregos e desenvolvimento.
Contudo, não se pode imaginar que todas as empresas brasileiras sucumbirão à investida dos grupos externos. Há numerosos e importantes exemplos de sucesso do capital nacional no contexto da nova ordem econômica. Vender ou vender seus negócios não é a única opção para os empresários brasileiros, a despeito das dificuldades advindas da fulminante abertura comercial e do descompasso das normas econômicas e tributárias provocado pelo atraso da revisão constitucional. Vencer ou vencer também pode - e deve - ser um caminho viável. Afinal, o mercado não tem donos!
E qual é a alternativa dos setores produtivos brasileiros para enfrentar com soberania os desafios da globalização? Em termos gerais, a fórmula está expressa nos pacotes de ajustes que se aplicam de forma ampla e irrestrita no parque empresarial, ancorados no tripé qualidade/produtividade/redução de custos. Mais particularmente no setor de biscoitos, além desses requisitos básicos de sobrevivência, as empresas nacionais têm de ousar, investindo em produtos capazes de disputar a preferência do consumidor em condições de igualdade com os importados e os fabricados aqui pelos grupos multinacionais.
A alternativa que demonstra, em termos práticos, ser a mais viável é a criação de produtos inéditos e diferenciados e a busca de nichos mercadológicos. Nesta conjuntura, altamente competitiva e seletiva, sobrevirão as empresas que privilegiarem a qualidade e inovarem, nos produtos, nas embalagens, na distribuição e no marketing. Esta é a resposta corajosa do capital nacional aos desafios da globalização. É inevitável realizar um grande esforço de modernização, desenvolvimento de tecnologia e aquisição de equipamentos sofisticados para concorrer com produtos de alta qualidade, respaldados pelo enorme cacife publicitário e de marketing dos gigantes internacionais.
Mais do que nunca, é necessário arregaçar as mangas e encarar de frente os desafios do mercado. Hoje, o que o Brasil mais precisa é de empresas - nacionais e multinacionais - dignas, éticas, eficientes, confiantes nos seus esforços e capazes de conviver com a competitividade, a mais intangível lei da economia, neste novo mundo sem fronteiras.
- LUIZ FRANCISCO TRIELLI é diretor Comercial e de Marketing da Bela Vista


