A autônoma Gislaine Paula da Paz vende produtos caseiros no cruzamento da avenida Rio de Janeiro com Alameda Manoel Ribas, no Centro, e ganha menos de dois salários mínimos por mês. A jovem pouco estudou e, embora conviva com gente entrando e saindo de uma das principais agências bancárias de Londrina, nunca abriu uma conta corrente ou poupança. ''Minha mãe nunca teve (conta bancária) e eu também não (me importei)'', contou.
A realidade dela é igual a de 36% da população brasileira, como apontou a pesquisa ''Retratos da Sociedade Brasileira: Inclusão Financeira'', divulgada ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI)/Ibope. O levantamento foi feito em todo o território nacional com entrevista de 2.002 pessoas em 141 municípios. No Sul do país, o percentual de pessoas que não têm conta em banco foi de 30%, ou seja, um pouco abaixo da média nacional.
A principal razão da exclusão bancária, apontada por 60% dos entrevistados, é a falta de condições financeiras. Na sequência, 11% das pessoas ouvidas disseram que um segundo fator é o alto custo de manutenção de uma conta. Um outro dado importante que a pesquisa revelou é que 67% das pessoas que estudaram apenas até a 4 série do ensino fundamental também não têm conta bancária ou poupança, indicando que a baixa escolaridade prejudica decisivamente a utilização do sistema bancário.
''Não tenho dinheiro suficiente para ficar movimentando na conta. Ganho pouco mais de um salário mínimo e vou ficar dando para o banco, que cobra uma infinidade de taxas?'', criticou a cozinheira Maria José Fernandes. A movimentação financeira dela fica restrita ao dinheiro.
A pesquisa apontou que praticamente quatro em cada cinco brasileiros (78%) usam dinheiro como principal forma de pagamento, enquanto 13% preferem o cartão de crédito. O cartão de débito é utilizado por 6%. A utilização do dinheiro é mais comum entre as pessoas de baixa renda (88%).
Poupança
O hábito de poupar é comum a 30% da população. Para aqueles que têm renda superior a dez salários mínimos, 66% fazem alguma reserva de dinheiro. Já para os mais pobres (renda de até um salário mínimo) o ato de poupar fica restrito a 17%.
''Com filhos, a obrigação é poupar. Em casa não é diferente, sempre guardamos'', afirmou a confeiteira Sandra Pires, que tem renda em torno de sete salários mínimos. Ela mantém duas contas bancárias em instituições diferentes.
Por conta de clientes assim é que a caderneta é a principal forma de poupar dinheiro (68% dos entrevistados), seguida pela reserva de dinheiro em casa ou na conta corrente, ambas com 16%. As aplicações financeiras são praticadas por apenas 3% das pessoas ouvidas pela CNI/Ibope.
Endividamento
O levantamento revelou inda que quanto maior a renda, maior a probabilidade de endividamento. Entre os que têm rendimento acima de dez salários mínimos, 53% estão endividados. O percentual cai para 26% entre os que recebem até um salário mínimo.
Os homens estão devendo mais do que as mulheres: em média, 41% dos entrevistados disseram estar com alguma dívida, ante 35% das mulheres. ''Eu uso o limite direto, nem fico preocupado. Não vou esquentar a cabeça por dívida pequena no banco'', revelou o aposentado Ivo Perez Botelho.
A opção de endividamento mais assinalada foi o cartão de crédito, com 32%. Em seguida apareceram o crediário com lojas (25%), empréstimo com banco (20%), empréstimo consignado (17%), cartão de loja (16%) e empréstimo com financeiras (8%). O limite do cheque especial representa apenas 5% do endividamento, conforme a pesquisa.

Imagem ilustrativa da imagem Um em cada três sulistas não tem conta em banco
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