Recentemente usei o espaço desta coluna para registrar que viria ao Brasil um importante intelectual e ativista político norte-americano: Noam Chomsky, professor do MIT, o prestigioso Instituto de Tecnologia do estado de massachusets, autor de mais de 50 livros.
Na época, explicava que Chomsky é considerado pelos seus compatriotas como um chato, basicamente por dizer a verdade como a vê, sem se incomodar se suas idéias são politicamente corretas.
Estava na primeira fila do auditório da UPRH, na semana passada - para ouví-lo. Por ameaçadoras que possam parecer suas idéias, o professor e sua mulher são pessoas extremamente simpáticas, amáveis. Poderiam ser um casal de aposentados, que não seriam olhados duas vezes se estivessem fazendo compras em um mall de Miami. Ele lembra um pouco Woody Allen.
Mas, assim que esquenta, a fala mansa de Chomsky torna-se uma metralhadora giratória assestada contra a sabedoria convencional.
Por exemplo, agora que o ‘‘lado de lᒒ perdeu a guerra Fria, quais são so princípios que as democracias ocidentais, lideradas pelos EUA, vão implantar? A julgar pelo registro histórico - argumenta - vamos assistir a um filme de horror, em que as poucas liberdades democráticas conquistadas pela sociedade vão ser cada vez mais ameaçadas pelo pragmatismo mercantil praticado pelas mutlinacionais e implementados pelos governos - em especial nos países mais pobres.
Para o professor, não existem sociedades capitalistas, ‘‘a não ser, - quem sabe - em algum país do terceiro mundo’’, ironiza. As nações ricas são sociedades que praticam o capitalismo de estado, privatizando lucros e socializando prejuízos. ‘‘Não há um só exemplo’’, provoca, ‘‘de indústria que não seja subsidiada direta ou indiretamente pelo Estado’’. A tecnologia foi aperfeiçoada nos projetos militares, financiados pelo Pentágono; os grandes laboratórios comercializam produtos desenvolvidos pelas universidades, com dinheiro público e os países ricos só se lembram de censurar os subsídios quando eles são usados para exportar tomates mexicanos ou sapatos brasileiros...
‘‘Esta nova ordem, portanto, parece consistir em socialismo para os ricos e capitalismo para os pobres’’ - e o auditório aplaudiu muito a frase de efeito.
Chomsky é especialmente crítico em relação à mídia. ‘‘São negócios como outros quaisquer’’, dispara. ‘‘Seus donos gostariam que todas as pessoas ficassem imóveis diantes da TV, assistindo aos comerciais e comprando os produtos anunciados pela Internet’’. Para eles, a net deve tornar-se uma gigantesca rede de compras...
Mas é nessa fixação no objetivo da venda, do lucro a qualquer preço que reside a fraqueza do sistema - contrapõe o professor. Ele é massificante, porém pouco criativo. Aos cidadãos ‘‘ligados’’ e que não concordam com o rumo das coisas - como descritas por Chomsky cabe utilizar as novas técnicas e tecnologias das comunicações para colocarem-nas a serviço dos movimentos sociais.
Tarefa para os intelectuais? Chomsky perguntou à platéia constituída por maioria de acadêmicos: o que é um intelectual? ‘‘Sou de uma família de imigrantes pobres e pouco educados e lembro com fascínio das conversas estimulantes que tínhamos em casa sobre todos os assuntos, enquanto, hoje, aborreço-me intensamente no clube dos professores de Harvard’’. E concluiu: ‘‘Sempre houve intelectuais, através da história, só que buscavam a verdade e eram chamados de profetas. Os profetas cujas verdades criticavam o sistema forma geralmente presos, torturados ou mortos. Aqueles cujas verdades eram convenientes e que co-optavam as razões injustas dos poderosos ganharam poder e fortuna. Só que hoje, ninguém se lembra deles’’.
- JOSÉ ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketing.

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