Agência Estado
Toda a pompa e circunstância desta Cimeira, assim como as boas intenções que figurarão na declaração conjunta a ser firmada hoje pelos chefes de Estado e de governo do Mercosul, Chile e União Européia, não escondem o fato de que os dois blocos têm agendas diferentes - e em alguns pontos, opostas - para os próximos anos. Fortes interesses comerciais, políticos e estratégicos atraem o olhar europeu para o leste e o sul, enquanto os sul-americanos dividem suas atenções entre os EUA e a Europa.
Entre 2000 e 2006 a União Européia estará discutindo a incorporação de mais 12 países-membros do Leste Europeu - da Bulgária à Letônia. A UE negocia acordos de livre comércio com o Egito, a Tunísia, Marrocos, Israel, Palestina e Jordânia. Também há os acordos de preferências comerciais com os países da Ásia mais afetados pela crise asiática e lançados como iniciativa para ajudá-los a recuperar-se da crise. Mesmo na América Latina, a UE tem outras prioridades.
Depois de seis bem-sucedidas rodadas de negociações, a UE e o México devem formalizar ainda este ano um acordo de livre comércio, com termos já ratificados pelo Parlamento Europeu e pelos parlamentos de vários países-membros da União. O México aceitou retirar da mesa de negociações a questão dos subsídios agrícolas, para acelerar a criação de uma área de livre comércio com os europeus.
O México é uma espécie de ponto de honra para os europeus. Sua participação no Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) levou a UE a perder muitos negócios com o México. Atualmente 75% do comércio exterior mexicano é feito com Estados Unidos e Canadá. É uma espécie de trauma, que impulsiona a aproximação européia à América Latina.
Altos funcionários europeus deram a entender também que as negociações com o Chile vão caminhar mais rapidamente do que com os quatro países-membros do Mercosul, embora os chilenos tenham embarcado junto com o bloco do cone sul, na chamada ‘‘passarela’’. O motivo é parecido: o Chile não tem produção agrícola do porte dos países-membros do Mercosul, e se declara satisfeito com o grau de acesso de suas frutas de exportação no mercado europeu.
Mesmo nas negociações entre o Mercosul e a União Européia, há uma polarização de interesses, com os europeus buscando a liberação do mercado do cone sul para seus produtos industriais e sobretudo serviços, e os sul-americanos tentando derrubar as barreiras européias para seus produtos agrícolas.
O ex-secretário de Estado de Portugal para Assuntos Europeus Vitor Martins é categórico: ‘‘As prioridades 1, 2 e 3 da União Européia são os setores de serviços, serviços e serviços.’’ Falando a empresários paulistas, no final da semana, em São Paulo, Martins acrescentou que ‘‘a posição européia está fechada nessa frente e 90% de sua atenção está e estará voltada para essas áreas na Rodada do Milênio’’.
De acordo com ele, a meta dos países europeus é conseguir maior abertura nos setores de telecomunicações, serviços financeiros e saneamento básico (água potável e esgoto), entre outros. Depois dessas três prioridades, acrescentou Martins, vem a área de proteção aos investimentos.
Leia mais sobre a Cimeira no primeiro caderno

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