Troca no Banco Central fortalece Malan
A nomeação do economista Armínio Fraga para a presidência do Banco Central representa o fortalecimento da liderança do ministro Pedro Malan e o fim da ambiguidade na condução da política econômica. Malan e o presidente interino do BC, Francisco Lopes, estavam divergindo do ponto de vista conceitual quanto operacional na implementação das políticas cambial e monetária.
A ascensão de Lopes à presidência do BC, no dia 13 de janeiro, se deu em meio à deterioração da percepção do mercado sobre a solidez da presença de Malan e, especialmente, às dúvidas quanto a evolução do acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Lopes estava resistindo a uma puxada das taxas de juros, medida defendida pelo FMI como forma de estancar o aumento de preços internos.
As divergências de Lopes quanto ao acordo com o Fundo Monetário não são surpresas. Em outubro passado, quando ocupava interinamente a presidência do BC, (o então presidente Gustavo Franco estava em Washington com o ministro Malan negociando o acordo com o FMI) Francisco Lopes fez duras críticas às negociações. Em entrevista, Lopes se opôs ao acordo com o Fundo e chegou a fazer declarações depreciativas a respeito dos objetivos da diretoria do FMI no Brasil. Os burocratas de Washington vivem uma tremenda excitação com a idéia de fazer um acordo de emergência para o Brasil e encobrir as trapalhadas dos seus fracassos recentes na Ásia e na Rússia, disse.
E ditou o que considerava a política correta para defender o País: elevar de 2% para 10% a alíquota do IOF incidente sobre o ingresso de capitais especulativos, aumento de impostos.
Lopes condenava, na época, o que chamou de histeria da cavalaria americana para definir a idéia que se propagava de que o Brasil teria quebrado e só se salvaria se houvesse uma enorme e substancial ajuda do G-7 e dos organismos internacionais. E insistia na análise de que o Brasil não era um país quebrado e não estava à beira de um colpaso e tampouco necessitava de um pacote internacional de emergência para manter seus pagamentos.
A dificuldade nas relações pessoais entre o ministro da Fazenda e Lopes se agravou no processso de mudança da política de câmbio controlado para o regime de taxas flutuantes. Na manhã de sexta-feira, 15, Lopes resistiu à decisão de liberar o câmbio, segundo fontes ouvidas pela Agência Estado. Da Fazenda Córrego da Ponte, em Buritis, nas proximidades do DF, o presidente Fernando Henrique Cardoso autorizara a mudança diante do evidente fracasso da política de bandas largas de flutuação da moeda norte-americana adotada por Lopes dois dias antes. Mas para implementar a decisão foi necessário que o próprio Malan se dirigisse ao BC para operar a mudança, adotando uma postura, segundo essas fontes, do tipo eu sou o ministro da Fazenda e o senhor está sob o meu comando. Foi o ministro quem operou a mesa de câmbio, disse uma fonte do governo.
Feita a passagem, Lopes passou pela avaliação e aprovação da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) e pelo plenário do Senado, reforçando sua posição de economista porque sua exposição foi considerada brilhante pelos senadores e aplaudida no Palácio do Planalto. Assim, Francisco Lopes havia chegado à posição de presidente do BC a qual ambicionava. Na saída do ex-presidente Gustavo Franco, Lopes deixara claro que faria a transição da política cambial desde que ocupasse a presidência do BC. Na semana passada, no entanto, o Ministério da Fazenda e o Palácio do Planalto faziam a auto-crítica: deveriam ter insistido para que o próprio Gustavo Franco fizesse a transição da política de banda cambial para o câmbio flutuante.
As negociações para indicação de Armínio Fraga tiveram início na semana passada. Fraga participou do jantar com o presidente Fernando Henrique Cardoso, na quarta-feira, 27, e no dia seguinte tomou café da manhã com o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães. Depois do encontro com o presidente no Palácio do Alvorada, na quarta-feira, 27, Lopes assegurou a pessoas de seu círculo que Armínio Fraga não voltaria ao governo. Ele recusou o convite, contou.
No jantar com o presidente, do qual participaram Malan e os economistas André Lara Resende e Armínio Fraga - além de Lopes, que no entanto foi chamado para o encontro hora e meia depois do seu início a intenção, naquele momento, era persuadir Armínio Fraga a voltar para a diretoria de Assuntos Internacionais do BC, função que desempenhou na gestão do ex-ministro Marcílio Marques Moreira. A diretoria de assuntos internacionais, hoje ocupada por Demósthenes Madureira de Pinho, ficaria vaga. Demósthenes, amigo pessoal de Gustavo Franco, já comunicara ao próprio Malan sua intenção de deixar o cargo.
À frente dessa diretoria, Armínio Fraga seria o operador de câmbio respeitado pelo mercado que o governo precisava. Mas no governo ninguém confirmava que o economista aceitara o cargo. A estratégia foi disseminar a informação de que ele só retornaria ao Brasil no mês de junho, depois de cumprir uma quarentena com o seu afastamento da Fundação Soros, de propriedade do megainvestidor George Soros. Mas se tornavam cada vez mais fortes os indícios de que Armínio Fraga se tornaria o primeiro reforço da equipe econômica.
Além do encontro no Alvorada, ao qual funcionários da presidência atribuiram o caráter de verdadeira reunião de trabalho, Fraga ficou praticamente 24 horas em companhia de Malan, no ministério e na casa do ministro, do qual foi hóspede. Na manhã da quinta-feira, 28, Fraga tomou café da manhã com o presidente do Congresso, senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), e conversou com ex-colegas seus na sede do BC.





