Trigo pode pagar a conta da Embraer
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sexta-feira, 01 de setembro de 2000
Vânia Casado De Curitiba 
A Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar) enviou correspondência ontem aos ministros da Agricultura, Pratini de Moraes, e Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, manifestando preocupação com informações sobre iminente entrada no País de trigo do Canadá. O trigo seria moeda de troca para compensar aquele país pelos prejuízos decorrentes de subsídios às exportações de aviões. A Ocepar quer evitar a concretização de fortes rumores neste sentido.
A Ocepar argumenta que o trigo canadense também é subsidiado e seria incoerente a compra de um produto subsidiado para minimizar uma multa (de US$ 1,4 bilhão) aplicada pela venda de aviões, que a Organização Mundial do Comércio (OMC) julga que são subsidiados. Além disso, trata-se de produtos de setores diferentes, industrial e agrícola, e um não pode compensar o outro, critica João Paulo Koslovski, presidente da Ocepar.
Koslovski não se conforma que essa negociação por parte do governo brasileiro esteja ocorrendo justamente agora que os produtores do Paraná acabam de sofrer o maior revés dos últimos tempos, quando perderam a maior parte das lavouras em função das geadas. Se isso ocorrer, o governo brasileiro vai acabar reduzindo as tarifas de importação, que hoje estão em 13% para o trigo proveniente do Canadá e Estados Unidos. O presidente da Ocepar disse que certamente essa medida vai irritar tanto a Argentina que é parceira do Brasil no Mercosul como os demais países produtores de trigo que também querem abocanhar nosso mercado, justificou.
Na correspondência aos ministros a Ocepar alerta sobre os riscos dessa operação. Essas ações receberam o apoio da OCB - Organização das Cooperativas Brasileiras - e da Fecotrigo, que congrega as cooperativas do Rio Grande do Sul, que temem uma nova derrocada da produção de trigo no País que não tem condições de arcar com mais esse ônus.
O fato é que a escassez de trigo no Brasil está aguçando o interesse dos países produtores de trigo. Em função das geadas, o Brasil deverá importar entre 7,5 milhões e 8 milhões de toneladas de trigo, o que corresponde a um desembolso de R$ 1,7 bilhão. Com isso, Argentina, Canadá e Estados Unidos estão de olho em participar desse mercado.
Atualmente o Brasil compra trigo da Argentina, cuja tarifa de importação é zero, em função de negociações do Mercosul. A cotação internacional de trigo para o mês de Setembro é de US$ 120 a tonelada e US$ 124 para Outubro. Se o Brasil comprar o trigo do Canadá, os importadores vão internalizar o produto mais caro porque terão que ser pagos o imposto de importação mais o frete.
Os maiores prejudicados com isso são os 19 mil produtores de trigo no Paraná, que perdem o estímulo em continuar na atividade e com isso, colocam em risco cerca de 30 mil empregos diretos, frisa Koslovski. O Paraná que já produziu mais de três milhões de toneladas de trigo, vai produzir esse ano apenas 650 mil toneladas, embora tenha potencial de produzir facilmente quatro milhões de toneladas.
Koslovski acusa o governo brasileiro de negligenciar com a cultura, quando na maioria dos países produtores o trigo é altamente subsidiado porque trata-se de um produto de segurança nacional. Enquanto isso, o governo brasileiro usa a cultura como moeda de troca, colocando em risco o futuro do trigo no País, insiste.


