Triburistas prevêem queda da lei do sigilo
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sábado, 20 de janeiro de 2001
Agência Estado De Brasília 
Tributaristas ouvidos pela Agência Estado insistem que, apesar das precauções do governo para evitar abusos da Receita Federal na quebra do sigilo bancário sem a necessidade de autorização judicial, a legislação deve sofrer novas contestações no Judiciário. Essas duas leis são flagrantemente inconstitucionais, diz o jurista Ives Gandra Martins. Para ele, a quebra do sigilo bancário pela Receita Federal é uma afronta ao Judiciário. Segundo ele, a Receita já tinha o poder de pedir dados sobre movimentações bancárias desde que houvesse autorização judicial. O sonegador já não tinha proteção pela lei anterior, afirmou. Para o jurista, o objetivo da lei foi afastar o Judiciário.
Ives Gandra Martins considera, entretanto, que mais grave que a quebra de sigilo é a lei complementar 104, batizada de lei anti-elisão. Essa lei permite ao fiscal da Receita Federal desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária. Essa lei é dramaticamente inconstitucional, afirmou.
O tributarista Ilan Gorin, da Gorin Associados, tem a mesma opinião de Ives Gandra em relação à lei anti-elisão. Não concordo de forma alguma que práticas empresariais possam ser desclassificadas por um fiscal, afirmou Gorin. Para reforçar sua crítica à Lei Complementar 104, citou o exemplo de uma empresa comercial que opera com duas lojas. Cada uma das lojas tem faturamento de R$ 120 mil, o que excluiu a empresa do Simples, o sistema simplificado de pagamentos de impostos e contribuições admitido para as pequenas empresas.
Se, por circunstâncias de mercado, a empresa decidir fechar uma das lojas, passando, então, a ser enquadrada no Simples, o fiscal pode entender que o fechamento foi proposital e desclassificar a operação. Por isso, discordo frontalmente dessa lei, definiu. Daqui a pouco, até para ter filho a pessoa vai ter que pedir autorização para a Receita porque o fiscal pode interpretar o ato como um planejamento tributário.
Para o tributarista, a insistência do secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, em aprovar a Lei anti-elisão caracteriza a falta de vontade do governo de acabar com as brechas legais da legislação em vigor.
O consultor Eivany Antônio da Silva, da SBS Consultoria e ex-secretário adjunto da Receita no governo Sarney, acredita que o governo vai sofrer um desgaste no Judiciário por conta da inconstitucionalidade da nova legislação que definiu novos mecanismos de fiscalização para a Receita Federal. Segundo Eivany, o secretário Everardo Maciel já conseguiu a aprovação de uma série de medidas que reduziram as brechas de sonegação. Entre as mudanças que atacaram brechas legais para reduzir o volume de pagamento de impostos, citou a lei que acabou com a prática do subfaturamento nas importações. Agora, vir uma lei e dizer que a administração pode desqualificar um ato previsto em lei, isso eu não aceito, disse o consultor. O governo então que acabe com as brechas.


