Transporte abocanha 15% do valor da safra
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de outubro de 1998
Andréa Maia e Venilson Ferreira Agência Estado 
A soja é um bom exemplo de como a agricultura brasileira perde a corrida para seus concorrentes no longo caminho das regiões produtoras até os portos. A despesa com transporte consome quase 15% com a receita líquida com a exportação do grão. Estudos da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), estimam que o preço médio do frete ao porto no Brasil fica na casa dos US$ 37,00/tonelada, contra US$ 17,00/tonelada na Argentina e US$ 15,00/tonelada nos Estados Unidos.
A razão para esta diferença não está simplesmente no fato de as regiões produtoras a cada ano mais se afastarem da costa brasileira. O baixo custo do transporte da soja nos EUA deve-se ao fato de 61% da safra navegar através do Rio Mississipi, do Corn Belt até o Golfo do México.
No Brasil, apenas 3% da safra de soja é transportada através de hidrovia, segundo levantamento da própria Abiove. Nos EUA, apenas 16% das safra de soja é transportada por caminhões, contra 67% no Brasil.
No transporte ferroviário os números se aproximam: 28% no Brasil e 23% nos EUA. Cálculos das empresas de logística são de que o custo de transporte de uma tonelada de grãos por 1.000 km no Brasil ficam em R$ 40,00 para rodovia; R$ 29,00 por ferrovia e R$ 12,00 por hidrovia.
O produtor rural e corretor de grãos Moisés Sachetti, da Lucra Corretora, de Cuiabá (MT), destaca que os investimentos feitos no últimos anos em infraestrutura de transportes, nas três modalidades principais, permitiram que o preço do transporte da soja do Chapadão dos Parecis (MT) até Paranaguá (PR), que no início da década atingia no pico da safra US$ 100,00/tonelada, atualmente não ultrapasse US$ 75,00/tonelada.
Sachetti diz que a tendência para o próximo ano é de que os custos do frete caiam ainda mais, com a alternativa de uso da Ferronorte, que passa a funcionar em plena carga em abril/99.
As hidrovias Tietê-Paraná e Rio Madeira estão possibilitando ao Brasil recuperar parte do atraso neste tipo de transporte. No ano passado, a Tietê-Paraná deve transportar neste ano 6 milhões de toneladas de grãos, contra 4,4 milhões de toneladas em 1995.
A Hidrovia Rio Madeira, uma conjunção de investimentos públicos e privados para escoamento da safra da Chapada dos Parecis (MT) através de Porto Velho (RO) e Itacoatiara (AM) com destino a Roterdan, devendo escoar nesta safra 700 mil toneladas de soja.
A multimodalidade ampliou o leque de opções das empresas, que hoje dispõe não só de vários meios como de rotas alternativas, o que não ocorria antes quando estavam limitadas ao transporte por caminhões.
A Caramuru, cujos produtos saem da fábrica de Itumbiara (GO) com destino aos portos e centros consumidores, nos últimos anos passou a utilizar a ferrovia, que se tornou um meio de transporte mais eficiente e confiável, segundo César B. de Souza, diretor da empresa. Hoje, diz ele, é possível saber com certeza o prazo de chegada da carga.
Outra alternativa utilizada pela Caramuru é a hidrovia Tietê-Paraná, que facilitou o acesso ao Porto de Santos, para onde são destinadas cargas que antes iam para Paranaguá. O baixo custo do transporte hidroviário compensa os altos custos do Porto de Santos, diz ele.
O transporte multimodal acaba sendo muito mais prático do que quando só era possível utilizar um dos meios, como a rodovia por exemplo. Por Tubarão (ES), a empresa projeta escoar 80 mil toneladas de farelo de soja até o final deste ano.
No ano passado, o volume exportado por Tubarão foi de 22 mil toneladas. De São Simão a Santos (utilizando hidrovia, rodovia e ferrovia), a estimativa é de transporte de 215 mil toneladas, ante 127 mil toneladas de 97. Por Paranaguá, via rodovia, o volume transportado caiu de 114 mil toneladas para 50 mil toneladas.
No caso da soja em grãos, a Caramuru estima um volume de 25 mil toneladas escoadas por Santos e outras 25 mil toneladas por Paranaguá, via rodovia. Em 97, o volume que chegou a Santos via ferrovia foi de 67 mil toneladas. Por Paranaguá, o volume foi de 27 mil toneladas em 97.
Via hidrovia/rodovia, por Santos, a Caramuru aumentou o volume escoado de 21 mil toneladas em 97 para 50 mil toneladas nesses ano. Já no modal rodovia/ferrovia por Santos não haverá escoamento neste ano. No ano passado, o volume foi de 17 mil toneladas.
Segundo Souza, o custo do frete aumentou para Tubarão, via rodovia/ferrovia, de R$ 35 (97) para R$ 38/tonelada. Os outros trechos apresentaram redução no custo do frete.


