Transição energética é pauta da 25ª edição do Encontros Folha
Evento acontece na próxima terça-feira (9), no Aurora Shopping, com um panorama sobre os caminhos da energia limpa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de setembro de 2025
Evento acontece na próxima terça-feira (9), no Aurora Shopping, com um panorama sobre os caminhos da energia limpa
Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA 

O Encontros Folha está de volta com uma pauta digna de uma edição histórica. O evento criado em 2014 com o objetivo de fomentar um debate de alto nível entre gestores empresariais, pesquisadores, estudantes e líderes da sociedade civil chega a edição de número 25 na noite da próxima terça-feira (9), no Aurora Shopping, para discutir as transformações em curso no setor energético, tema que ganha cada vez mais visibilidade à medida que se aproxima o megaevento sobre mudanças climáticas, a chamada COP30, que será realizada pela primeira vez no Brasil em novembro.
Há dúvidas se em Belém pode nascer uma salvação após dias de reflexões urgentes sobre um planeta climaticamente cada vez mais hostil à aventura humana, mas o certo é que empreendedores do mundo inteiro ainda continuarão tentando entender como os negócios podem ser impactados pelas novas ideias que surgem na corrida pela descarbonização.
A geração, distribuição e consumo de eletricidade não serão mais as mesmas nesta realidade, o que faz da transição energética uma parte importante no desenvolvimento econômico global, nos investimentos em infraestrutura e no planejamento das empresas.
Em histórico discurso feito na sede da ONU, em Nova Iorque (EUA), em julho, o secretário-geral da ONU, o português António Guterres comemorou o fato de que no ano passado foram investidos US$2 trilhões em energias limpas, US$ 800 bilhões a mais do que em combustíveis fósseis, representando um aumento de quase 70% em dez anos.
Ele mencionou dados da Agência Internacional de Energias Renováveis que mostram que a energia solar, antes quatro vezes mais cara, agora é 41% mais barata do que a gerada com petróleo e gás. Destacou também que a energia eólica offshore (com geradores instalados no mar) é ainda mais barata, 53%.
“Mais de 90% das novas fontes renováveis em todo o mundo produziram eletricidade a um custo inferior à alternativa fóssil mais barata. Isto não é apenas uma mudança de fonte de energia. É uma mudança de possibilidades”, argumenta.
No Centro de Eventos, localizado no quarto piso do shopping, as discussões pretendem tratar propriamente destas possibilidades. Com o título “Energia que Transforma: Inovação, Tecnologia e Sustentabilidade Movendo o Futuro”, o Encontros Folha reúne um grupo de especialistas que se alternam entre as palestras e se reúne depois em um painel com participação do público. As inscrições estão abertas na plataforma Sympla.
Debate público
"A FOLHA está especialmente entusiasmada com este momento do Encontros Folha porque além de contarmos com um tema tão estratégico para a região, para o Estado e para o Brasil, alcançamos este marco de solidez que é a 25ª edição", comemora o superintendente do Grupo Folha de Londrina, Nicolás Mejía.

"Quando começamos esta jornada na década passada, movidos por um propósito e pela nossa vocação, estávamos decididos a oferecer conteúdo qualificado para o debate público. Com o apoio de tantos líderes e pensadores, creio que atingimos claramente este objetivo, o que nos orgulha e nos fortalece", disse.
Após as palestras, o debate será comandado pelo professor do campus Londrina da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), Marco Antonio Ferreira, do Departamento Acadêmico de Engenharia de Produção e coordenador do MBA em Gerenciamento de Projetos.
“A agenda de sustentabilidade está em pauta no mundo inteiro. Neste debate, acredito que a gente consegue entender melhor as oportunidades de negócio que surgem com o próprio conceito de sustentabilidade. Entender todos os aspectos desta agenda é importante para qualquer profissional e qualquer empresa que queira inovar e gerar divisas com as novas tecnologias”, adianta.
Entre estes aspectos, o conhecimento da legislação e das resoluções governamentais é parte fundamental para dominar as noções que regem o novo mundo. O arcabouço legal que baliza as políticas de sustentabilidade, com impacto inclusive no setor de energia, vive um processo dinâmico nos últimos tempos.
Economia circular
Ele citou como exemplo o Plano Nacional de Economia Circular, aprovado em maio, um documento com 18 objetivos e mais de 70 ações que baseiam a transição econômica para um modelo que garante o reaproveitamento quase integral de tudo que é produzido a partir de cinco eixos, que vão do ambiente normativo à articulação interfederativa, passando pela educação e inovação, pela redução de resíduos e pelos instrumentos financeiros (tributação diferenciada e fundos de fomento).
O relatório da ONU divulgado este ano informa que só em 2023, os setores das energias limpas impulsionaram 10% do crescimento do PIB mundial. Na Índia, 5%. Nos Estados Unidos, 6%. Na China, um líder na transição energética, 20%. E na União Europeia, quase 33%. No Brasil, o setor de fontes renováveis de energia - biocombustíveis, hidrelétricas, solar, eólica, biomassa e biogás - já gera mais de 1 milhão de empregos formais, o segundo maior contingente do mundo, superado apenas pela China, de acordo com boletim da Agência Internacional de Energia.
A reindustrialização do país, um dos temas mais debatidos nesta década, também pode ser uma realidade menos distante num mundo mais sustentável. Ferreira lembra que novas áreas empresariais - ou a adaptação das antigas - podem se multiplicar no Paraná e no País inspirados nos ecoparques europeus e chineses, nos quais as operações são integradas, com matérias-primas, logística, infraestrutura e gestão ambiental compartilhadas, com uso racional da água, da energia e o reaproveitamento mútuo de resíduos.
A professora do curso de Engenharia Elétrica da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Juliani Piai Paiva, doutora em Planejamento de Sistemas Energéticos pela Universidade Estadual de Campinas e pesquisadora do NAPI (Novos Arranjos de Pesquisa e Inovação) Energia Solar, liderado pela Fundação Araucária, e líder do Laboratório de Energia e Desenvolvimento Sustentável da UEL, será uma das painelistas do Encontros.
MP 1300
Ela mencionou dois temas que pretende abordar em sua explanação: os atuais desafios na produção e distribuição da energia fotovoltaica - que já ultrapassa um quinto do total da matriz - e a segunda é a MP 1300, que promove uma reforma profunda no mercado de consumo de energia elétrica no País até o fim de 2027.
“Os investimentos foram tão robustos que hoje já pode se dizer que existe um excesso na produção de energia de fonte solar. O grande desafio tecnológico é avançar na armazenagem desta energia em baterias cada vez mais potentes”, explica.

Em relação a MP 1300, sancionada em maio pelo presidente Lula e que ainda aguarda análise do Congresso Nacional, Juliani Paiva pretende explicar como ela vai impactar as decisões das empresas. Uma vez aprovada, a reforma vai permitir que consumidores - primeiro os industriais e comerciais e, posteriormente, os residenciais - possam comprar energia da distribuidora que oferecer o melhor preço. “Os empresários que estão projetando investimentos em captação de energia fotovoltaica podem, por exemplo, ter que ponderar se ainda será vantajoso ou não diante da consolidação do mercado livre”. O governo federal estima que, no caso das famílias, a reforma pode significar um custo 27% menor na conta de luz.
Quem for ao Aurora também poderá conhecer detalhes da operação de duas empresas que estão se destacando no mercado pelos resultados em sustentabilidade. Uma delas é a metalúrgica Aesa, que tem uma planta em Cambé, e fabrica feixes de molas e grampos de fixação para caminhões. O palestrante Fábio Bearzi Cino, diretor de Inovação da empresa, que ainda tem um perfil familiar, já na terceira geração de gestores, deve relatar detalhes de como a empresa utiliza biometano, fonte na qual o Paraná está se consolidando como destaque nacional. “Por ser uma potência agropecuária e produzir muitos resíduos, a gente brinca que o Estado tem um verdadeiro pré-sal caipira para explorar”, lembra o empresário, que se orgulha de ter 80% do consumo de energia da metalúrgica desta fonte renovável.
Interesse da indústria
De acordo com informações do governo estadual, o Renova Paraná, programa de fomento a energias renováveis, 25 empresas já tomaram a iniciativa de se cadastrar em busca de financiamento para utilizar o biometano (a versão purificada do biogás obtido pela decomposição de material orgânico) na indústria. O Estado também já tem seu Plano de Biogás e Biometano, estruturado pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) e desenvolvido pela Paraná Projetos. O caderno contém análises, diretrizes estratégicas e propostas para atrair investidores e estimular um ambiente competitivo entre eles.

Cino conta que a unidade de Cambé da Aesa depende do vai e vem de caminhões transportando o combustível verde. Eles se deslocam desde a unidade da Geo Biogas & Carbon em Tamboara, na região de Paranavaí, uma usina pioneira no país que aproveita um grande volume de palha, vinhaça e torta de filtro extraída nos canaviais e na moagem para produzir gás suficiente para substituir diariamente o consumo de 48 mil litros de diesel.
A coordenadora de Meio Ambiente, ESG e Sustentabilidade da Geo Biogas & Carbon, Isabela Machado, também vai discorrer sobre economia circular, sobre o potencial do biometano brasileiro e sobre qual é o papel do Paraná neste sistema produtivo.
De acordo com a palestrante, que é doutora em engenharia civil e especialista em sustentabilidade, com foco em soluções de baixo carbono, o biogás é um exemplo da sustentabilidade de resultados. “Quando falamos em economia circular, falamos em um novo modelo de negócios que conecta sustentabilidade e resultado. O biogás é peça central nessa equação: ele transforma resíduos que antes eram um passivo ambiental em energia limpa, renovável e competitiva”, reforça. “No Brasil, temos um potencial único de transformar resíduos da agroindústria em energia limpa e competitiva”, avalia. “E o Paraná pode ser protagonista dessa revolução energética.”


