Levantar todos os dias às 5 horas da manhã para começar a trabalhar na roça às 7 horas, fazendo capina, plantando mandioca ou colhendo algodão. Esta é a rotina dos últimos três anos da menina Adébora Alves da Silva, de apenas 13 anos, de Amaporã, no Noroeste do Paraná. Para ajudar a família ela virou bóia-fria em plena infância.
Adébora é apenas uma das muitas crianças que são obrigadas a virar gente grande antes da hora e se submeter ao duro trabalho do campo. De acordo com o IBGE, as crianças hoje representam 37% da mão-de-obra do campo no Paraná.
Adébora representou as crianças brasileiras no Encontro Internacional de Crianças Trabalhadoras, realizado de 29 de novembro a 6 de dezembro em Kundapur, na Índia. Ela foi escolhida para representar o Brasil depois que se destacou no Encontro Nacional das Crianças e Adolescentes Trabalhadores Rurais, realizado em outubro último, em Brasília. Na ocasião, Adébora encaminhou um documento com reivindicações ao presidente Fernando Henrique Cardoso.
No encontro encerrado na semana passada na Índia, Adébora relatou a experiência do trabalho do campo realizado hoje por muitas crianças no Brasil. No encontro internacional ela pode ouvir o relato de crianças trabalhadoras de outros países e chegou a uma conclusão: ‘‘aqui no Brasil o nosso trabalho é bem mais pesado’’.
A menina participou ontem do 3º Encontro Estadual de Política Agrícola, realizado pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetaep), em Curitiba. Ela contou que desde que começou a trabalhar como bóia-fria teve que deixar a infância de lado. ‘‘Agora não sobra mais tempo para brincar. É só trabalhar e estudar e descansar um pouco senão a gente não aguenta’’, conta Adébora. Depois de enfrentar um dia duro de trabalho muitas vezes debaixo de sol forte, a garota vai para a escola na cidade, onde cursa a 7ª série. ‘‘Às vezes o sono é tão forte que eu durmo na sala de aula’’, confessa.
O trabalho infantil é ilegal. De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente somente a partir dos 14 anos é permitido o trabalho. ‘‘A atividade é ilegal e precisa ser combatida’’, afirma Antonio Lúcio Zarantonello, presidente da Fetaep. Segundo ele, a Federação denuncia constantemente casos de trabalho infantil ao Minitério do Trabalho. Ele admite, no entanto, que hoje se uma criança deixa de trabalhar o dinheiro dela faz falta para a família.

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