Trabalhar na Europa fica menos atraente
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sábado, 17 de maio de 2008
Jamil Chade<br>Agência Estado 
Genebra - A desaceleração da economia na Europa, aliada às leis cada vez mais duras contra estrangeiros, começa a levar os imigrantes brasileiros de volta para casa. Depois de uma década lotando aviões em direção a países como Irlanda, Bélgica e Portugal, o número de brasileiros abandonando o sonho de viver no exterior aumenta. Até a ONU já criou um programa especial para ajudar os emigrantes nacionais a retornar às cidades de origem. A procura é tanta que o brasileiro que quiser voltar precisa entrar numa fila de espera que pode levar meses.
A Irlanda é o caso mais evidente desse retorno. O país, que ficou conhecido como ''Tigre Celta'', foi o que mais cresceu na região nos últimos anos. Seu Produto Interno Bruto (PIB) chegou a se expandir acima de 6%. Por isso, precisou da mão-de-obra estrangeira para permitir que a economia continuasse a pleno vapor.
Agora, com a desaceleração da economia dos Estados Unidos e os impactos no mercado imobiliário em muitas regiões do mundo, os primeiros a sofrer são os estrangeiros.
Em Gort, no oeste da Irlanda, um terço dos 3 mil habitantes da cidade veio do Brasil. Os primeiros viajaram para trabalhar em fábricas de processamento de carne. O boom no setor da construção acabou fazendo com que um número ainda maior chegasse a Gort.
O esquema era simples. Os brasileiros iam até a praça central da cidade pela manhã e esperavam que os donos de obras fossem buscá- los para trabalhar durante o dia. Hoje, a situação é mais difícil e o emprego, cada vez mais raro. Segundo Pascal Reyntjens, coordenador do Programa de Retorno Voluntário de Brasileiros da Organização Internacional de Migrações (OIM), os brasileiros já representam 40% de todos os estrangeiros que a entidade ajuda a repatriar.
A OIM estima que o número de brasileiros chegando à Europa ainda supera os que deixam a região. Mas, até pouco tempo atrás, o fluxo de pessoas voltando era praticamente insignificante, tendência que mudou nos últimos meses. Prova disso é que os programas de ajuda para retornar ao País da agência da ONU nem sequer recebia a atenção dos brasileiros. Hoje, ao menos cinco brasileiros procuram informações da ONU a cada dia.
O representante conta que a maioria dos candidatos são brasileiros que ainda não falam inglês fluente e não conseguiram trabalhos fixos. ''A situação econômica na Irlanda mudou'', afirma. Segundo ele, entre o fim de 2007 e início de 2008, cem brasileiros foram beneficiados pelo programa, que prevê o pagamento da passagem de volta ao País, acesso à escola no Brasil e até uma proposta de microcrédito para o ex-emigrante se reintegrar à sociedade. ''Muita gente passou anos na condição de irregularidade no exterior. Precisamos ajudá-los a voltar para a economia formal.''
Outro fator que tem levado os brasileiros a abandonar o sonho é a existência de leis mais duras contra imigrantes ilegais. O resultado é que muitos que estão na Irlanda não podem sair do país para visitar as famílias. Segundo o Itamaraty, existiriam cerca de 700 mil brasileiros vivendo hoje na Europa.
A OIM afirma que, na Bélgica, 800 brasileiros já usaram o programa de retorno voluntário nos últimos meses. De um modo geral, vários países europeus se questionam como farão para lidar com o exército de 8 milhões de estrangeiros vivendo no bloco diante de uma desaceleração da economia.
Na Espanha, 52 mil estrangeiros perderam seus trabalhos em um ano. Agora, o governo do país proporá pagar um seguro-desemprego para que os estrangeiros desempregados, inclusive os brasileiros, deixem o país e retornem aos seus locais de origem.
Madri ainda negocia com a França e a Inglaterra um novo acordo de imigração que deverá dificultar a entrada de novos estrangeiros no mercado da União Européia.
Nos últimos dez anos, o número de imigrantes que entrou no mercado europeu explodiu. Hoje, já são cerca de 8 milhões e representam 10% do PIB da região. Mas o boom na construção na Espanha, na Irlanda e outros mercados acabou, e muitos estrangeiros que estavam com sua situação regularizada agora estão sem trabalho.


