Trabalhar como forma de protesto é uma inovação
Pela primeira vez na história do sindicalismo brasileiro empregados decidem trabalhar - e muito - como forma de protesto. A estratégia, que sindicalistas do ABC prometem repetir hoje, é diametralmente oposta à utilizada em todos os movimentos deflagrados até agora, nos quais greves gerais, greves setoriais, operações-tartaruga e outras formas de boicote à produção foram a principal arma dos trabalhadores.
Os metalúrgicos da Ford foram ontem à fábrica, instalada em São Bernardo do Campo, dispostos a produzir, de saída, 600 carros no dia - a produção de antes do anúncio de 2,8 mil demissões na unidade. Não conseguiram, mas ainda não desistiram, segundo a comissão de fábrica informou ontem no final da tarde.
Nos anos 80, muitos destes mesmos metalúrgicos fizeram a famosa operação cambalacho que consistia em provocar defeitos nos veículos na linha de montagem, para desmoralizar a imagem da marca no mercado.
Ontem, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, pedia o oposto, ou seja, que a produção fosse feita de forma primorosa, em perfeita obediência aos padrões de qualidade da companhia.
Em 1990, os empregados fizeram greve num único setor vital, que teve como efeito a paralisação de toda a linha. A empresa, então da holding Autolatina, decidiu cortar salários de todos os empregados, em represália. A consequência foi um quebra-quebra sem precedentes na fábrica, com dezenas de carros incendiados e escritórios danificados.
Desta vez, contudo, Marinho não recomenda ataques ao patrimônio e sim disciplina no movimento, de modo a não suscitar acusações de depredação.





